quarta-feira, 25 de maio de 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

O REINO DE DEUS NOS SINÓTICOS

A TEOLOGIA DOS SINÓTICOS
Os sinóticos formam em si uma teologia peculiar, a teologia do Reino de Deus. Em Mateus encontramos 53 referências, em Marcos 19, em Lucas 45 perfazendo um total de 117 vezes.Esta teologia é simples, deve ser ensinada mas principalmente vivida. Este Reino já está entre os homens, na pessoa de Cristo, pois aproxima-se dos homens (Mt 3.2; 4.17); pode vir (Mt 6.10); chegar (Mt 12:28); aparecer (Mt 19:11); ser ativo (Mt 11:12).
Deus pode dar o Reino aos homens (Mt 21:43). Mas os homens não podem dar ou tirar de si mesmo, muito embora possam impedir que os outros entrem no Reino.
Os homens podem entrar no Reino, mas nunca foram aconselhados a erigi-lo ou edificá-lo. Os homens podem receber o Reino (Mc 10:15), herdá-lo (Mt 25:34) e possuí-lo, mas nunca devem estabelecê-lo (Lc 10:11), Os homens podem rejeitar o Reino, recusar-se a recebê-lo (Lc 10:11) ou a entrar nele (Mt 23:13), mas não podem destruí-lo. Podem procurar por ele (Lc 23:51) orar por sua vinda (Mt 6:10) e buscá-lo (Mt 6:33; Lc 12:31) mas não somos informados que o Reino cresce. Os homens podem realizar certas coisas por causa do Reino (Mt 19:12; Lc 18:29) mas são conclamados a agirem em relação ao próprio Reino.
Os indivíduos podem pregar o Reino (Mt 10:7; Lc 10:9) mas somente Deus o dará aos homens. O Reino gera a Igreja. O domínio dinâmico de Deus, presente na missão de Jesus, desafiou os homens a manifestarem uma resposta positiva, introduzindo-os em um novo grupo de comunhão.
A presença do Reino significou o cumprimento da esperança messiânica do Novo Testamento que fora prometida a Israel, mas quando Israel como um todo rejeitou a oferta, os que a aceitaram foram constituídos como novo povo de Deus, os filhos do Reino, o verdadeiro Israel, a Igreja incipiente. A Igreja não é senão o resultado da vinda do Reino de Deus ao mundo por intermédio da missão de Jesus.
O QUE É O REINO DEUS? COMO E QUANDO SE PROCESSA? QUAIS SEUS CRITÉRIOS? QUAIS SUAS IMPLICAÇÕES? QUAL É SUA DINÂMICA E ESFERA DE AÇÃO?
VEJA O REINO EM MATEUS:
*O reino está próximo, arrependei-vos e convertei-vos Mt 3.2
*Jesus pregou o evangelho do reino Mt 4.23
*Bem aventurado os humildes, porque dos tais é o reino de Deus.5.3
*Bem aventurado os que têm fome e sede de justiça, porque dos tais é o reino de Deus 5.10
*Quem quiser ser o maior serão menor no reino 5.19
*Quem desobedecer os mandamentos será pequeno no reino 5.19
*Quem obedecer será grande 5.19
*Se a nossa justiça não exceder a dos fariseus e escriba, jamais entraremos no reino 5.20
*O reino deve ser buscado com oração 6.10
*O reino deve ser buscado acima de tudo 6.33
*Nem todo que diz senhor, entrará no reino 7.21
*Muitos virão do oriente e ocidente e entrarão no reino 8.11
*Os filhos do reino serão lançados nas trevas 8.12
*Jesus mandou pregar que reino está perto 10.7
*O reino de Deus não está dividido, de outra forma não subsistiria 12.25
*O reino de Deus dissipa o reino das trevas 12.28
*Nem todos têm o privilegio de conhecer os mistérios do reino 13.11
*O reino de Deus é comparado a parábola do trigo e joio. 13.24
*O reino é comparado a um grão de mostarda 13.31
*O reino é semelhante ao fermento na massa. 13.33
*O reino é comparado a um homem que encontrando um tesouro num campo, *vende o tesouro e compra o campo. 13.44
*O reino é comparado a uma rede que apanha todo tipo de peixe, mas quando está cheio de peixes, seleciona os bons e rechaça os ruins.13.48
*A primeira pregação no dia do pentecoste foi a chave da abertura do reino 16.19.
*O reino pertence aos pequenos 18.3
*Os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros no reino 20.30
*Meretrizes e publicanos precedem religiosos no reino 21.31
*O reino será tirado dos religiosos e dado a quem produz frutos 21.43
*O reino é comparado a um rei que os nobres rejeitaram seu convite, mas ele convidou pobres e marginalizados. 22.2
*O reino será conhecido de todos antes do fim 24.14
*O reino é comparado as dez virgens 25.1
*O Senhor convidará para que os filhos entre na posse do reino que está preparado desde a fundação do mundo.25.34
*Haverá um longo interstício entre a última ceia com Jesus e a ceia no reino escatológico. 26.29.
O REINO EM MARCOS:
*O reino de Deus chegou e com ele o tempo de se cumprir as escrituras 1.15
*Um reino dividido não subsistirá. 3.24
*Nem todos têm acesso aos mistérios do reino. 4.11
*O reino é como um homem que lança a semente e depois se admira do seu broto, sem saber como se processou. 4.26
*O reino é como um grão de mostarda 4.30
*A inauguração da Igreja no dia de pentecoste estabelece a vinda do reino com poder do Espírito Santo conforme Mt 16.19 A Igreja é agente deste reino.Mc 9.1
*Vale a pena o altruísmo e a abstinência para entrarmos no reino. 9.47
*Dos pequenos é o reino 10.14
*Quem não receber o reino na qualidade de pequeno não entrará nele. 10.15
*Dificilmente entrará no reino quem confia em riquezas. 10.23 10.24
*Jesus foi aclamado o Rei do reino de Deus, conforme a aliança de Davi. 11.10
*A verdadeira compreensão da palavra conduz o homem a proximidade do reino. 12.34
*Depois da última ceia Jesus só beberia a próxima no reino de seu Pai 14.25
*José de Arimatéia esperava o reino de Deus 15.43
O REINO EM LUCAS:
*Satanás mostrou o seu reino em troca do reino de Deus. 4.5
*Satanás ofereceu a glória do seu reino em troca da glória do reino de Deus 4.6
*É necessário que o filho do homem anuncie evangelho do reino de Deus.4.43
*Os pobres são fortíssimos candidatos ao reino de Deus. 6.20
*O menor no reino de Deus é maior no reino terrestre 7.28
*Jesus andava de aldeia em aldeia pregando o evangelho do reino 8.1
*Nem todos têm acesso a compreensão verdadeira do reino. 8.10
*Jesus comissionou discípulos par pregar o evangelho do reino. 9.2
*A rotina de Jesus era falar sobre o reino 9.11
*Alguns discípulos teriam a oportunidade de ver a glória do reino(talvez se referisse a transfiguração) 9.27
*Jesus mandou pregar o reino impreterivelmente 9.60
*Quem retrocede não é apto ao reino de Deus 9.62
*Jesus mandar pregar que o reino já está entre os homens. 10.9
*Sabei que o reino está perto 10.11
*Jesus mandou buscar o reino em oração 11.2
*O reino de deus não divide, caso contrário não prevaleceria. 11.17 11.18
*Se o reino de Deus está expulsando o reino das trevas, realmente o reino de Deus é chegado a vós. 11.20
*Buscai o reino com prioridade e as outras coisas acontecerão naturalmente. 12.31
*O Pai se agradou e se alegrou em poder nos dar o reino 12.32
*O reino é comparado ao grão de mostarda. 13.18
*O reino é comparado ao fermento na massa. 13.20
*Muitos filhos do reino serão lançados fora 13.28
*Virão muitos do oriente e do ocidente e assentarão a mesa no reino de Deus. 13.29
*Muitos convidados ficarão de fora do reino e muitos não convidados entrarão no reino de Deus. 14.15-18.
*O reino vem sendo pregado e os homens se esforçam para entrar nele. 16.16
*O reino não vem com aparência 17.20
*O reino está dentro de nós. 17.21
*Dos pequenos é o reino de Deus. 18.16
*Quem não receber o reino na qualidade de pequeno, não entrará nele. 18.17
*Dificilmente entrará um rico no reino de Deus. 18.24
*É mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que o rico entrar no reino de Deus. 18.25
*Quem priorizar o reino será recompensado muitas vezes. 18.29
*Quem investe no reino é reconhecido pelo Pai 19.11-27.
*Sabei que o reino está perto 21.31
*Na última ceia Jesus disse que só comeria no reino escatológico 22.16 22.18
*Assim como meu pai me confiou um reino, eu vos outorgo o poder deste reino e vos convido para cear. 22.29-30
*Lembra-te de mim quando entrares no teu reino, clamou o ladrão. 23.42
*José de Arimatéia esperava o reino de Deus. 23.51
Pr. Jesiel Padilha ministrando teologia do Novo Testamento

TEORIA DO MÉTODO TEOLÓGICO

TEORIA DO MÉTODO TEOLÓGICO

Como Nasce a Teologia

Ementa: Pretende-se precisar como se processa o ato de teologizar, descrevendo fenomenologicamente como se dá o fazer teológico.

Porque Isto: A Teologia?

1.A fé deseja saber
A pessoa de fé quer naturalmente saber o que é mesmo aquilo que acretida, se é verdade ou não.Quer saber também o que implica tudo aquilo em sua vida concreta e em seu destino.Tal é a definição clássica da teologia: fides quaerens intellectum (a fé buscando entender) É a expressão já clássica de Anselmo(1109) a fé deseja saber, ela busca a luz. Seguindo a mesma linha de Agostinho(IV século) desejei saber com inteligência o que acreditei. O amor é um elemento intrínseco da fé. Quem ama medita, divaga. Alhures afirma: “o amante não se contenta com a atenção superficial do amado”. Citemos igualmente outro grande metodólogo, agora das ciências modernas, Francis Bacon : “ dá à fé o que é da fé “ fidei quae fidei sunt”
Em vão lutará frustra sudaverit” aquele que pretende obrigar os celeste arcanos da religião a se adaptarem a nossa razão.

2. O espírito humano busca incansavelmente conhecer.
Examinemos agora a mesma questão pelo lado sujeito que crê.
Aristótelos afirmou: ‘todo ser humano aspira o conhecimento” . Por isso a teologia pode se definir como “ afé de olhos abertos”. É a fé lúcida, inteligente e crítica.

3. A teologia nasce da fé acompanhada da conversão. Só um ser profundamente transformado pode verdadeiramente ter acesso aos mistérios divinos.

4.A fé é unitária, nos completam nessa complexidade que a fé é fonte, objeto e fim da teologia.de fato da fé compreende:
fides quae: fé palavra, que a fé dogmática
fides qua: fé experiência, que é a fé fiducial.
Fides informata: fé prática, encarnada.
A fé é simultaneamente princípio objeto e objetivo da teologia. E é riqueza de suas múltiplas dimensões. Por isso, entende-se a fé como um ato de total obediência a palavra, como faz Paulo em Romanos 1.5.
A fé vem antes da teologia e tem o primado absoluto sobre ela, como mostra a tradição teológica, nas linhas do “ crer para entender de Agostinho’ e que retornou em seu “ creio para entender”. Podemos afirmar que a teologia é um falar a partir do falar de Deus. Seu objetivo é um sujeito, uma pessoa “ alguém”. Deus é o sujeito eterno da teologia.

O Que Estuda a Teologia e Em que Perspectiva

Para desenvolver a questão do objeto e da perspectiva própria da teologia, partimos da estrutura do saber científico.
O saber científico põe em ação três elementos principais:
o sujeito epistênico, em nosso caso o teólogo.
o sujeito teórico, na teologia, Deus e sua criação.
O método especifico que é o caminho para o sujeito chegar ao objeto visado.

I.Distinção Epistemológica Primária
Devemos partir da distuição clássica entre objeto material e objeto formal de uma ciência.
1.Objeto Material – “o que” é um “corte vertical” delimitando uma região, para delas em seguida se ocupar. Trata-se do “que” de um saber, i.e., matéria prima, temática, assunto, questão.
2.Objeto Formal – “como” é um corte horizontal no objeto material, a fim de captar-lhe em nível ou camada. Aqui temos nos o “que”, nos “como”, i.e.,aspecto, dimensão, faceta, lado, nível, razão específica.

Estrutura do Discurso Teológico Particular

1.O objeto material da teologia. De que trata a teologia? Deus e tudo o que se refere a Ele, i.e., o mundo Universo: a criação, a salvação e tudo mais. Mas como Deus é o ”determinante sobre tudo”, então, qualquer coisa pode ser objeto de consideração do teólogo. Deus, com efeito, pode ser definido como “a realidade que determina todas as realidades”.
Poderíamos falar, com outras palavras, assim: Deus é o objeto “ principal” da teologia; tudo mais é objeto “conseqüencial”. De fato a fé diz respeito em primeiro lugar a Deus, e das demais coisas só por conseqüência , ou seja, por causa de Deus.
2.O objeto formal da teologia. Que é “Deus enquanto revelado”. É o Deus revelado, o Deus da Bíblia, o Deus do evangelho, o Deus Salvador.
Todos os outros objetos da teologia- objetos secundários- são tratados sob a mesma ótica, ou seja, a partir do revelado. E podem ser teologizados na medida em que são relacionados com o Deus da fé, ou seja, enquanto situados sub ratione Deus, “ sob o enfoque de Deus”.
O decisivo num assunto qualquer é sempre seu objeto formal (objetivo), ou, a perspectiva (subjetiva) a partir da qual se encara aquele assunto. é o objeto formal que determina se um discurso é ou não é teológico.
Deus é o sujeito eterno da teologia, já que a teologia é o discurso de Deus sobre o ser humano e não o discurso do ser humano sobre Deus, este último é conhecido como “ teologia filosófica”, e não teologia cristã, que é o discurso da palavra de Deus e não simplesmente da fé subjetiva dos fiéis.

OS NOVOS ENFOQUE TEOLÓGICOS

São 5 os principais enfoques teológicos que marcam presença no atual cenário teológico, as quais buscam integrar em seus discursos um horizonte globalizado:
1.O enfoque da libertação. A teologia da libertação(que trata dos problemas sociais)
2.O enfoque feminista. Teologia que vê a fé e o mundo a partir da ótica da mulher.
3.O enfoque étnico. É a teologia inculturada a partir da ótica negra, indígena e asiática.
4.O enfoque inter-religioso. É um teologizar desafiador que busca o diálogo entre as religiões
5.O enfoque ecológico. É toda questão teológica concernente a vida, natureza e todo cosmos em seus mútuos relacionamentos.
Contestar que Deus não pode ser substituído por libertação, ou outro tema qualquer é confundir objeto material com objeto formal, e não caracterização de ilegitimidade do tema.Deve ficar claro porém que tais enfoques de modo nenhum substituem o enfoque originário da teologia , que é pensar tudo “ à luz da fé” . são enfoques secundários que se somam ao primário, apóiam nele, o desdobram e, de todos os modos, se articulam sobre ele e com ele. A teologia pode ser feita a partir de qualquer perspectiva, desde que o foco esteja no ponto mais originário, ou seja, “ a partir da fé”, ou a partir do Deus de Jesus Cristo.

A RACIONALIDADE DA TEOLOGIA

A razão não é só a razão formal (lógica) ou a empírico-formal(científica) existe também a razão discursiva em geral, a que exibe razões várias para se explicar: argumentos, raciocínios, provas de diversos tipos, seja necessitantes, seja convenienciais.

A Distinção Entre “ intellectus” e “ Ratio” em Teologia.

1. Intellectus fidei é o intellectus, enquanto função originária e originante do pensar, que está em operação no campo da fé. Essa atitude fundamental constitui precisamente o intellectus fidei. Este testemunha que a fé possui sua evidencia, sua luz e inteligência específica. A fé tem seus próprios olhos. A fé aparece aí como saber, experiência, gnose, sabedoria, amor.
2.Ratio fidei é a fé feita razão, melhor ainda, feita razões, é isso precisamente teologia. Ela nasce do intellectus fidei, para tornar-se, em seguida, a ratio fidei.
Do mesmo modo como se distinguem inteligência e razão, assim também importa distinguir fé e teologia, fé e razão, assim também importa distinguir fé e teologia, fé e razão, mais precisamente inteligência da fé e razão da teologia. Distinguir, sim, mas para unir. Pois se trata de momentos diferentes de um mesmo processo. Em metáfora, Castro Alves destaca a pomba mística fé da águia da razão.
Hermenêutica em Teologia
Passando agora à teologia, digamos que sua razão própria também possui uma constituição hermenêutica. E isso num duplo sentido. É hermenêutica, em primeiro lugar, porque trabalha os textos da Bíblia. É hermenêutica no sentido estrito. Nessa linha, a teologia como hermenêutica procura a verdade absoluta dos oráculos proféticos, mediação da revelação. Todo seu esforço racional neste caso consiste em interpretar corretamente a palavra de deus. Mas, como particularidade própria, a teologia não precisa perguntar, como fazem as outras ciências humanas: Será que tal sentido intencionado é verdadeiro? Pois ela daria já por assentada, de antemão, no âmbito da fé, a verdade do oráculo divino. As questões que ficam para a teologia e que ela tem que enfrentar são só duas:
1.foi Deus mesmo que falou isso?
2.O que ele quis mesmo dizer com isso?
Mas a teologia é hermenêutica também num segundo sentido: porque interpreta sempre de novo a tradição viva da fé em função dos tempos.

TEOLOGIA É CIENCIA

Que é teologia? Na definição de agostinho é discurso sobre Deus. Mas nem sempre o discurso sobre Deus tem conotação científica. O que nos interessa aqui é saber se a teologia é ou pode ser ciência. Teologia é ciência partindo do princípio que a ciência é um conceito analógico. Ora, o que a teologia pode ter(e de fato tem) em comum com as outras ciências é o modelo formal, caracterizando pelos três traços seguintes:
1.Criticidade
Assim como toda a ciência, a teologia é um saber crítico, ou seja, um saber que opera sobre si mesmo, que é consciente de seus procedimentos. A teologia é, portanto, um saber edificado sobre a análise crítico-metódica das verdades da fé.
2.Sistematicidade.
Toda ciência cria um corpo de saber. Tal corpo é unificado segundo princípios de estruturação interna, para formar uma arquitetura teórica coerente.
Pela sua posição original” pística” a teologia não busca criar de fora sistemas explicativos para depois aplica-los ao ministério, mas antes procura refazer teoricamente a estrutura interna do próprio ministério. Fá-lo através de sistema de sentido que tenham uma capacidade máxima de saturação noética. Veremos como, em teologia os pontos de fuga desses sistemas são sempre numerosos, devido a transcendência de seu objeto. Queremos dizer que o sistema de compreensão que melhor explica o ministério cristão é também o mais científico do ponto de vista teológico.
3.Dinamicidade.
Nas ciências hermenêuticas a dinamicidade é ainda mais acentuada. Pois as organizações de sentido que buscam saturar explicativamente o campo próprio de estudo se revelam sempre curtas. Daí as contínuas retomadas de explicação no curso das pesquisas históricas.
Assim também ocorre analogamente com a teologia. E mais ainda com ela. Pois se há uma característica científico-formal que mais convém à teologia é esta. Isso por uma razão dupla:
O horizonte de mistério ou transcendência de seu objeto; e protensão escatológica da verdade divina pelo fato de a revelação plena”apocalipse” ser um evento decididamente parusíaco.
Tudo isso dá à teologia um dinamismo extremo, sem paralelo com qualquer outro discurso. Por isso a teologia continuamente faz e refaz suas estruturações racionais, procurando avançar o quanto pode. Daí o dilúvio de discursos e produções teológicas, como a ameaçar submergir o mundo(jó 21.25).

A teologia é ciência na medida em que realiza a tríplice caracterização formal de toda ciência, que é a de ser crítica, sistemática e auto-amplificativa.
Falando em geral, a racionalidade própria da teologia, enquanto “ ciência humana’ , é de tipo hermêutico: ela procura compreender, de modo mais exaustiva ou “ saturado” possível, a palavra de Deus ou o sentido da fé, primeiro do texto bíblico e, em seguida, à luz deste, do “ texto da vida” .
BIBLIOGRAFIA
TEORIA DO MÉTODO, Editora vozes clóvis boof

sábado, 30 de abril de 2011

A MORTE E A DOR NA VISÃO DO FILÓSOFO ARTHUR SCHOPENHAUER

A morte e a dor

Ateus.net Artigos/ensaios Filosofia Autor: Arthur Schopenhauer Fonte: A vontade de amar. São Paulo, Edimax, s/d. (1950?)

A Morte

O Grande Desengano. O laço formado com inconstância pela criação é desfeito pela morte, sendo a penosa aniquilação o principal erro do nosso ser; o grande desengano. A Filosofia; Filha da Morte. Morte, gênio inspirador, a musa da filosofia. Sem a qual dificilmente se teria filosofado. A Noite Eterna. Quão longa é a noite da eternidade comparada com o curto sonho da vida. Não Sobreviver; Persistir. A indestrutibilidade que a duração infinita da matéria oferece, poderia consolar aquele que não pode conceber outra imortalidade. O quê? dir-se-á a persistência de uma matéria bruta, de um pouco de pó, seria a continuidade do nosso ser? Sim, um pouco de pó. Conhecem o que é esse pó? Aprendam a conhecê-lo antes de o desprezar. Essa matéria, pó e cinza, dentro em pouco dissolvida na água, brilhará no esplendor dos metais, projetará faíscas elétricas, manifestará o seu poder magnético, converter-se-á em animal e em planta, e no mistério de sua essência criará essa vida, cuja perda chora amargamente nosso espírito acanhado. Não será nada, então, persistir na indestrutível matéria? Dogma da Imortalidade. A natureza nos ensina a doutrina da imortalidade, quando se observa, no Outono, o pequeno mundo dos insetos, e se nota que um prepara o leito para o longo sono do Inverno, que outro prepara o casulo onde se transforma em crisálida, para renascer na Primavera, e que, enfim, esses insetos se contentam, quando próximos da morte, em colocar os ovos em lugar favorável para renascerem um dia rejuvenescidos, num novo ser? A natureza nos expõe a esses exemplos com o intuito de demonstrar que não há diferença fundamental entre a morte e o sono; ambos, perigo algum constituem à existência. O cuidado com que o inseto prepara a célula, o buraco, o ninho e o alimento para a larva, que há de nascer na Primavera, e morre, uma vez isso feito, assemelha-se muito ao cuidado com que o homem, à noite, arruma a roupa, prepara o almoço para o dia seguinte, indo depois dormir sossegadamente. E isto não sucederia se o inseto que morre no Outono não fosse exatamente igual ao que deve nascer na Primavera, assim como o homem que se deita, é o mesmo que se levanta no dia seguinte. A Vida e a Morte. Nascimento e morte são condições da vida, e se equilibram, formando os dois pólos, as duas extremidades da existência, e ao seu redor giram todas as suas manifestações. Um símbolo da mitologia hindú, a mais sábia de todas, dá como atributo a Siva, o Deus da morte e da destruição, um colar de caveiras e o lingam , órgão e símbolo da geração, pois o amor é a compensação da morte, e um ao outro se neutralizam. Para tornar mais evidente o contraste da morte do homem com a vida imortal da natureza, os gregos e os romanos adornavam os seus sarcófagos com baixos relevos figurando danças, caças, lutas entre animais, bacanais e, numa palavra, todos os espetáculos de uma vida mais forte, mais agradável e alegre, e até mesmo sátiros unidos a cabras. Necessidade da Morte. A individualidade do homem tem tão pouco valor que nada perde com a morte; há alguma importância nos característicos gerais da humanidade, que são indestrutíveis. Se concedessem ao homem uma vida eterna, sentiria tanta repugnância por ela que acabaria desejando a morte, farto da imutabilidade de seu caráter e de seu ilimitado entendimento. Se exigíssemos a imortalidade perpetuaríamos um erro porque a individualidade não deveria existir, e o verdadeiro fim da vida é livrar-
nos dela. Se não houvesse penas e trabalhos, acabaria o homem por enfastiar-se, e voltaria a sofrer as dores do mundo em tudo o que se encontrasse ao seu alcance. Num mundo melhor o homem não se sentiria feliz, o essencial seria fazer com que ele seja o que não é, isto é, transformá-lo completamente. A morte realiza a principal condição; deixar de ser o que é; tendo isto em conta, concebe-se-lhe a necessidade moral. Ser colocado noutro mundo, e mudar inteiramente de ser, é no fundo uma só e mesma coisa. Seria conveniente que a morte, que destruiu uma consciência individual, a reanimasse de novo dando-lhe uma vida eterna? Qual o conteúdo, quase invariável desta consciência? Uma torrente de idéias e preocupações mesquinhas, acanhadas, terrenas. Melhor seria deixá-la repousar eternamente. Supremo Consolo. Contemplando a expressão de suave serenidade refletido no rosto da maioria dos mortos, parece que o fim de toda a atividade da vida, seja um consolo para a força que a mantém. Indiferença da Natureza perante a Morte. A vida e a morte, o nascer e o morrer, é o maior jogo de dados que conhecemos; ansiosos, interessados, agitados assistimos a cada partida, porque a nossos olhos tudo se resume nisso. A natureza, pelo contrário, que é sempre sincera e nunca mente, contempla a partida com ar indiferente, não se preocupa com a morte ou a vida do indivíduo, entregando a vida do animal e também a do homem a todos os acasos, não fazendo o mínimo esforço para os salvar. Esmagamos sem querer o inseto que se acha em nosso caminho; a lesma necessita de todo meio para se defender, não pode fugir, esconder-se, nem enganar, está condenada a ser presa de todos os seus inimigos; o peixe saltita tranqüilamente na rede ainda aberta; o sapo devido a sua moleza não pode salvar-se; o pássaro não vê o falcão voar sobre sua cabeça, nem a ovelha vê o lobo que a espreita oculto na mata. Todos esses animais inofensivos e fracos, vivem no meio de perigos ignorados, dos quais podem ser vítimas a todo momento. A natureza exprime com esse procedimento, no seu estilo lacônico, oracular, que lhe é indiferente a destruição de seus seres, não podendo ser por eles prejudicada, e que em casos semelhantes tão indiferente é o efeito como a causa. Por isso abandona sem defesa esses organismos, obras de uma arte eterna, à vontade do mais forte, aos caprichos da sorte, à crueldade da criança, ao mau numor de um imbecil. A natureza, mãe soberana e universal de todo o criado, sabe que quando seus filhos sucumbem, voltam ao seu seio, onde os conserva ocultos, expondo-os a mil perigos sem temor algum; a sua morte é para ela um divertimento, um jogo. A natureza é indiferente no que se relaciona ao homem ou ao animal; não se deixa impressionar conosco, durante a vida ou na morte. Tampouco devíamos nos comover porque fazemos parte dela. A Folha Seca Interroga o Destino. Se dirigíssemos o pensamento para um longínquo futuro e procurássemos representar-nos às futuras gerações com os milhões de homens distintos e diferentes de nós pelos usos e costumes, perguntaríamos a nós mesmos: De onde vieram? Onde estão agora? Onde se achará o profundo seio do nada, produtor do mundo, que os oculta? Mas a esta pergunta, devíamos sorrir, por onde se poderá achar senão onde toda a realidade é, e será, no presente em tudo o que este representa e contém, em ti, insensato que interrogas, pois ignorando a tua própria essência, assemelhaste a uma folha seca que oscila no ramo de uma árvore, e, no Outono, pensando na sua próxima queda, lamenta sua sorte, sem querer consolar-se com a idéia dos tenros brotos que na Primavera virão adornar a árvore. E a folha seca se queixa: Já não sou eu, serão outras folhas . Oh! folha insensata onde queres tu ir? De onde poderiam vir as outras folhas? Onde está esse nada em que temes sucumbir? Reconhece, pois, o teu próprio ser oculto na força íntima, sempre ativa da árvore, nessa energia que não acarreta a morte nem o nascimento de todas as suas gerações de folhas. Não sucede com as gerações de homens o mesmo que com as folhas de uma árvore?
A Dor
A Vida é Dor. Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor. Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre. A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos. A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em horrível carnificina os restos da presa. A vida é uma história da dor, que se resume assim: sem motivo queremos sofrer e lutar sempre, morrer logo, e assim consecutivamente durante séculos dos séculos, até que a Terra se desfaça. Deus, Criador. Se é certo que um Deus fez este mundo, não queria eu ser esse Deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração. Se imaginássemos um demônio criador, ter-se-ia o direito de lhe censurar, mostrando-lhe a sua obra: Como te atreves a perturbar o sagrado repouso do nada, para criares este mundo de angústia e de dores? Nosso Inferno. O inferno de nossa vida supera o de Dante no ponto de que cada um de nós é o demônio do seu vizinho. Há também um arquidemônio, a quem os outros obedecem: é o conquistador, que dispõe os homens uns em frente dos outros e lhes grita: Vosso destino é sofrer e morrer; portanto, matem-se mutuamente . E assim procedem os homens. O Melhor dos Mundos. Se mostrássemos aos homens as horríveis dores e os atrozes tormentos a que está constantemente exposta sua existência, tremeriam de espanto; e se ao mais convencido otimista fizéssemos visitar os hospitais, os lazaretos, as salas de tortura dos cirurgiões, as prisões, os campos de batalha, os tribunais de justiça, os sombrios refúgios da miséria, e se por último, o fizéssemos contemplar a torre de Ugolino(1), acabaria por reconhecer de que modo é este o melhor dos mundos possíveis . Nosso Mundo; Modelo de Horrores. Se considerarmos a dificuldade que teve Dante em descobrir o céu e suas alegrias, logo se verá que classe de mundo é o nosso. Por quê? Porque o nosso mundo nada apresenta de análogo. E para descrever o Paraíso viu-se o poeta obrigado a dar parte das notícias que lhe deram os seus antepassados, sua Beatriz e vários santos. Sem dúvida, Dante descobriu muito bem o Inferno. Por quê? Porque achou o assunto e o modelo na realidade do nosso mundo. A Tragicomédia de Nossa Vida. Vista e examinada minuciosamente de alto e de longe, a vida de cada homem tem o aspecto de uma comédia; em sua total consideração ou em seus aspectos mais dignos de apreço, se apresentará como uma contemplação trágica. O afã e o trabalho de cada dia, os desejos e receios cotidianos, as desgraças de cada hora, os acasos da sorte sempre disposta a nos enganar são outras tantas cenas da comédia. As aspirações iludidas, as ilusões desfeitas, os esforços baldados, os erros que completam nossa vida, as dores que se acumulam até terminar na morte, o último ato, eis a tragédia. Parece que o destino quis juntar o escárnio ao desespero, e, fazendo de nossa vida uma tragédia, não nos permite conservar a dignidade de uma personagem trágica. Por isso é que em todos os atos da vida representamos o lamentável papel de cômicos. Da Dor ao Aborrecimento. A dor e o aborrecimento são os dois últimos elementos entre os quais oscila a vida do homem. Os homens exprimiram esta oscilação de modo curioso; depois de haverem feito do inferno o lugar de todos os tormentos e dores, que deixaram para o céu? Justamente o aborrecimento. Rio Abaixo. A vida é um mar cheio de escolhos e turbilhões que o homem evita à força de prudência e cuidados, sem embora desconhecer que, à medida que avança sem poder retardar a marcha, corre para o definitivo e inevitável naufrágio, a morte, fim fatal de sua acidentada navegação, é parte ele muito mais perigoso que todos os turbilhões e escolhos de que conseguiu escapar. Disfarces da Dor. Nossos esforços para banir a dor de nossa vida não conseguem outro resultado senão o de fazê-la mudar de forma. Em sua origem tomam o aspecto da necessidade, cuidado, para atender as coisas materiais da vida, e quando, após um trabalho incessante e penoso, conseguimos afastar a horrível
máscara da dor neste determinado aspecto, adquire outros mil disfarces, segundo a idade e as circunstâncias: o instinto sexual, o amor apaixonado, a inveja, o rancor, os ciúmes, a ambição, a avareza, o temor, a enfermidade, etc. Toma o aspecto triste e desolado do tédio, da sociedade, quando não encontra outro modo de se apresentar. E se com novas armas conseguimos afastá-la novamente, recuperará sua antiga máscara, e a dança recomeça. Condenados à Morte. Na primeira mocidade, colocamo-nos perante o destino, como as crianças, que, em frente ao pano de um teatro, impacientes e alegres, esperam as maravilhas que virão surgir em cena. É uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Para quem sabe o que realmente vai se passar, as crianças são inocentes condenados não à morte, mas à vida, e que desconhecem ainda a sua sentença. Todos Desterrados. Se não fosse a dor, poderíamos dizer que a nossa existência no mundo não teria nenhuma razão de ser. É um absurdo pensar que a dor, que nasce da vida e enche o mundo, seja apenas um acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça pessoal apresenta-se com uma exceção, mas, como somos todos desgraçados, a desgraça geral é a regra. Vivemos Combatendo. Na desgraça, pensar em outros que são mais desgraçados, é o nosso maior consolo: é este o remédio eficaz ao alcance de todos. Porém, como os carneiros, que saltam no prado, enquanto o carniceiro faz a sua escolha no meio do rebanho, assim, em nossas horas felizes, não sabemos que desastre nos prepara o destino, justamente nesse momento: enfermidade, ruína, loucura, perseguições, etc. Tudo que defendemos, resiste-nos, tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. A história nos diz que a vida dos povos é uma sucessão de guerras e revoltas; os anos de paz não passam de curtos entreatos. O mesmo acontece com a vida do homem, em constante luta contra as penas ou o aborrecimento, males abstratos, e contra seus semelhantes. Em todas, as partes e ocasiões temos que travar combate com um adversário. A vida é uma guerra sem quartel, e a morte nos encontra com as armas na mão. O Tempo, Mais um Tormento. A rapidez do tempo, que se conserva atrás de nós como um vigia dos forçados, é mais um tormento da existência, que nos faz viver apressadamente sem sossego e sem deixar-nos respirar. São poupados semente aquele que o tempo condenou ao aborrecimento. Necessidade da Dor. Todos nós necessitamos sofrer certo número de preocupações, de penas e misérias, da mesma maneira que um barco tem necessidade de lastro para conservar seu equilíbrio. Se assim não fosse, se súbito nos libertássemos do peso da dor e das contrariedades,o orgulho do homem o faria em bocados ou pelo menos ele seria levado às maiores irregularidades e até à loucura furiosa, do mesmo modo que o nosso corpo rebentaria se repentinamente deixasse de sentir a pressão atmosférica. O quinhão de quase todos os homens durante sua vida resume-se em pesares, trabalho e miséria, porém, se todas as aspirações humanas se realizassem, como que se preencheria o tempo? O que preencheria sua vida? Se os homens vivessem no país das fadas, onde nada exigisse esforço e onde as perdizes voassem já assadas e recheadas ao alcance da mão, num país, onde cada um pudesse obter a sua amada sem dificuldade alguma, eles morreriam de tédio ou se enforcariam, outros despedaçar-se-iam entre si, causando-se maiores males que os impostos pela natureza. E isto demonstra que para nós não há melhor cenário que aquele que ocupamos, nem melhor existência do que a atual. Se pensamos (e só é possível ter-se uma idéia aproximada) na dor, nos tormentos de todas as espécies que o sol ilumina no seu curso, sentimo-nos propensos a desejar que a sua luz perca o poder criador da vida, como acontece com a Lua, e que a superfície do nosso planeta se faça tão gelada e estéril como a do astro da noite. A Grande Mentira da Vida. Nossa vida é um episódio que perturba, sem nenhuma utilidade, a serenidade do nada. Mesmo aquele que não considera a existência como uma carga, à medida que passam os anos tem a consciência clara do que a vida é, em todos os seus aspectos, uma imensa mistificação, para não dizer uma formidável zombaria. O Espectador se Aborrece. O homem que sobrevive a duas ou três gerações pode ser comparado ao
espectador de um circo, que assiste às mesmas farsas duas ou três vezes seguidas. Como a farsa estava calculada para uma única representação sua repetição não causa efeito no ânimo do espectador, o qual se aborrece por estarem dissipadas a ilusão e a novidade. Uma Bela Expressão. A vida é uma carga enfadonha e aborrecida, uma tarefa que devemos desempenhar com tanto trabalho, que involuntariamente pensamos no descanso: e neste sentido a palavra defunctus é uma bela expressão. Vítimas e Algozes. Povoado por almas torturadas e por diabos que torturam, o mundo é um imenso inferno. A Filosofia não é o Catecismo. Ainda ouvirei dizer que a minha filosofia entristece tudo, isto porque digo a verdade àqueles que só gostariam que eu lhes dissesse: Deus, Nosso Senhor fez tudo muito bem . Ide à igreja, e deixai os filósofos em paz, ou, pelo menos, não lhes exijam que ajustem as suas doutrinas ao vosso catecismo. Recorrei aos filosofastros e encomendai-lhes teorias ao vosso gosto. Não há nada que dê mais prazer ou que seja mais fácil do que perturbar o otimismo dos que ensinam filosofia. A Dor de Viver. Se o ato da geração fosse somente obra de razão e reflexão, em vez de ser uma necessidade ou uma voluptuosidade, subsistiria a espécie humana? Não sentiríamos piedade pela geração futura, para lhe poupar a dor de viver, ou, ao menos, não hesitaríamos em impor-lhe a sangue frio tão pesada carga? Inveja e Compaixão. Não há uma só pessoa que seja verdadeiramente digna de inveja; e quantas são dignas de compaixão. Pranto, Dor e Aborrecimento. Nossa razão se obscurece ao considerarmos que as inúmeras estrelas fixas, que brilham no céu, não têm outro fim senão o de iluminar mundos onde reinam o pranto, a dor, e onde, no melhor dos casos, só vinga o aborrecimento; pelo menos a julgar pela amostra que conhecemos. O Mundo; Lugar de Expiação. Brama criou o mundo por uma espécie de pecado ou desvário, e permanece nele para expiar sua falta. Muito bem! Segundo o budismo, uma perturbação inexplicável criou o mundo, produzindo-se depois um longo repouso na beatitude serena, chamada Nirvana, que será conquistada pela penitência. Perfeitamente. Para os gregos o mundo e os deuses eram a obra de uma necessidade insondável, explicação admissivel, porque nos satisfaz provisoriamente. Ormuzd combate com Ariman: isto podemos admitir. Mas um Deus como esse Jeová, que animi causa, por seu belprazer, criou este mundo de lágrimas e dores, e que ainda se alegra e se aplaude de o haver criado, achando-o bom, isso já é demasiado forte. Sob este ponto de vista, podemos considerar a doutrina dos judeus como a última entre todas as que professam os povos civilizados, sobretudo, sendo que tomemos em consideração de ser ela a única que não possui qualquer vestígio de imortalidade. Ainda que a teoria de Leibnitz fosse verdadeira, embora se admitisse que entre os mundos possíveis este é o melhor, essa demonstração não nos daria nenhuma teodicéia, porque o Criador não se limitou a criar o mundo, mas também a possibilidade de sua criação: por isso deveria ter criado um mundo melhor. A dor que enche o mundo protesta irada contra a hipótese de uma obra perfeita devida a um ser infinitamente bom e sábio, e também todo poderoso. E, por outra parte, é bem evidente a notória imperfeição, a burlesca caricatura que é o homem, obra acabada da criação. Não é possível explicar essa dissonância. Quando consideramos o mundo como obra de nossa própria culpa, e, portanto, como alguma coisa que não pode ser melhor, as dores e miséria da humanidade são provas em apoio desta tese. Se o mundo é obra de um criador, as dores voltam-se contra ele dando lugar a cruéis sarcasmos; mas se é obra nossa, a acusação é contra o nosso ser e a nossa vontade. Isto nos faz pensar que viemos ao mundo já viciados, como os filhos de pais gastos pelos desregramentos, e que se a nossa existência é tão miserável, e tem por desfecho a morte, é porque assim merecemos, para expiar nossa culpa. Generalizando, nada é mais certo: a culpa do mundo é que causa os sofrimentos, e entendemos esta relação no sentido metafórico, e não no físico e empírico.
Por isso, a história do pecado original reconcilia-me com o Antigo Testamento; para mim é a única verdade metafísica que o livro contém expressa em forma alegórica. A nada se assemelha tanto nosso destino como à conseqüência de uma falta, de um desejo culpado. Para ter orientação na vida, e considerar a vida em seu verdadeiro aspecto, basta habituarmo-nos ao pensamento de que este mundo é um vale de lágrimas, em lugar de penitência; a penal colony, como a definiram os mais antigos filósofos, e alguns padres da Igreja. Não é mister que eu diga o que vale a sociedade de nossos semelhantes; aquele estão conscientes que mereciam outra melhor, assim como se sabe que não é a menor pena do presidiário a sociedade em que ele se encontra. Um espírito elevado, uma alma delicada, um gênio pode sentir a mesma necessidade de isolamento que um nobre prisioneiro que se encontra na cadeia rodeado de criminosos vulgares. Se sempre nos lembrássemos de que viemos ao mundo para expiar uma culpa, acolheríamos sem surpresa e sem indignação as imperfeições de nossos semelhantes, os tormentos que aqui sofremos, cuja miserável constituição intelectual e moral se revela até no rosto. A certeza de que o mundo e o homem não podem mudar nos encheria de dó pelo próximo. Com efeito, que podemos esperar de tais seres? Penso, às vezes, que a melhor maneira dos homens se cumprimentarem em vez de ser Cavalheiro, Senhor, Sir , poderiam ser, companheiro de sofrimentos, soci malorum, my fellowsufferer . Por mais irritante que pareça esta expressão, tem mais fundamento que as usuais, e recordanos a paciência, indulgência e amor ao próximo, e, usada por todos, beneficiaria a cada um. A Dor é a Única Positiva. Do mesmo modo que o rio corre manso e sereno, enquanto não encontra obstáculos que se oponham à sua marcha, assim corre a vida do homem quando nada se lhe opõe à vontade. Vivemos inconscientes e desatentos: nossa atenção desperta no mesmo instante em que nossa vontade encontra um obstáculo e choca-se contra ele. Sentimos ato contínuo tudo o que se ergue contra a nossa vontade, tudo o que a contraria ou lhe resiste: ou o que é mesmo, tudo o que nos é penoso e desagradável. No entanto, não prestamos atenção à saúde geral do nosso corpo, mas percebemos ligeiramente aonde o sapato nos molesta; não pensamos nos negócios e só nos importamos com uma ninharia que nos incomoda. Isto quer dizer que o bem-estar e a felicidade são valores negativos, e só a dor é positiva. É um absurdo acreditar o contrário; que o mal é negativo. Ele é positivo, porque se faz sentir. Toda a felicidade, todo o bem é negativo, e toda a satisfação também o é, porque suprime um desejo ou termina um pesar. Acrescentamos a isto que, em geral, nunca sentimos uma alegria maior que a que sonhávamos, e que a dor sempre a excede. Se quereis certeza das diferenças entre o prazer e a dor, comparem a impressão do animal que devora outro, com a impressão do devorado. Bolhas de Sabão. O homem só vive no presente, que se converte no passado, e afunda-se na morte. Exceto as conseqüências que podem influir no presente, e que são filhas de sua vontade, ou de seus atos, a sua vida passada já não existe. Devia portanto ser-lhe indiferente que esse passado fosse de prazeres ou tristezas. O presente foge-lhes das mãos, transformando-se no passado. O futuro é incerto. Fisicamente, o andar não é mais do que uma queda evitada a cada instante; da mesma maneira a existência é a morte suspensa, adiada, e a atividade de nosso espírito não é mais que uma luta constante contra o tédio. É pois fatal que a morte alcance a vitória. Por haver nascido lhe pertencemos, e durante nossa vida não faz senão brincar com a presa antes de a devorar. E assim como quem faz bolhas de sabão, e apesar da segurança de que acabará por rebentar, se entretém em fazê-la aumentar de volume, assim seguimos o curso de nossa existência, prodigalizando-lhe cuidados e atenções. A Felicidade Não Pode Viver no Presente. A vida é uma constante mentira, quer nas coisas pequenas como nas grandes. Quando nos faz uma promessa, não a cumpre, a não ser para mostrar-nos que era pouco desejável o nosso desejo. Da mesma maneira nos engana a esperança quando não se realiza o que esperávamos. E se a vida cumpre o que nos prometeu, é só para nos tornar a tirar. A beleza do paraíso, que à distância admiramos, desaparece logo que nos deixamos seduzir. A felicidade está no futuro, ou no passado; o presente é uma pequena nuvem escura que o vento impele sobre a planície cheia de sol. Diante e atrás dela, tudo é luminoso; só a nuvem é que projeta uma sombra. A Vida na Paz e na Guerra, e Sua Finalidade. A vida nunca se apresenta como um mimo que nos é dado gozar, mas sim como uma tarefa que tem de se cumprir à força de trabalho; disto nasce e toma origem uma concorrência sem tréguas, uma luta sem fim, uma miséria geral, uma agitação em que
tomam parte todas as forças do espírito e do corpo. Milhões de homens, reunidos em nações, trabalham para o bem público, trabalhando assim cada um em seu próprio interesse, porém, as vítimas deste trabalho morrem aos milhares. Às vezes, por preconceitos absurdos, outras, por uma política sutil, as nações se aniquilam numa guerra. É preciso que o sangue do povo corra em abundância para expiar a culpa de alguns, ou para realizar os caprichos de outros. Enquanto reina a paz no mundo, a indústria e o comércio prosperam, as invenções se multiplicam, os navios sulcam os mares, transportando para toda parte produtos do mundo, as ondas tragam milhares de homens. O tumulto é imenso, enquanto uns se agitam e movem, outros meditam. Mas qual é a suprema finalidade de tantos esforços? Manter, no caso mais favorável, a vida de seres efêmeros em uma miséria suportável, e uma ausência relativa de dor que o tédio aceita constantemente, e ademais a reprodução desses seres, e a renovação de seus esforços. Indefesa do Homem. De todos os seres, o homem é o mais necessitado: só tem vontades e desejos, um conjunto de centenas de necessidades. Abandonando a si próprio, vive na terra sem segurança nenhuma a não ser sua miséria. A luta pela vida, cada dia renovada, a necessidade que o constrange, e as imperiosas exigências materiais, preenchem a sua existência. Ao mesmo tempo, outro instinto o atormenta; o de perpetuar a sua raça. Ameaçado por todos os lados pelos perigos que o rodeiam, usa de sua prudência sempre vigilante para poder escapar. Com passo inquieto, lançando em volta olhares angustiosos, segue o seu caminho em luta constante com os casos e com seus inúmeros inimigos. O homem não se sente seguro entre os da sua raça e nem nos mais longínquos desertos. Qualibus in tenebris vitae, quantisque periclis degitur hocc'aevi, quodcunque est! Lucr. 11, 15. Trabalhar ou Aborrecer-se. A necessidade imperiosa do homem é assegurar a existência, e feito isto, já sabe o que fazer. Portanto, depois disso, o homem se esforça para aliviar o peso da vida, torná-la agradável e menos sensível: matar o tempo , isto é, fugir ao aborrecimento. Livres da preocupação de assegurar a existência, e livres seus ombros de todo fardo moral ou material, eles mesmos constituem sua própria carga, e sentem-se felizes porque viveram uma hora desapercebida, embora isto significa que sua vida a qual se esforçam com tanto zelo para prolongá-la, ficou encurtada pelo mesmo espaço de tempo. O aborrecimento merece tê-lo em conta; ele se reflete na fisionomia. O aborrecimento é a origem do instinto social, porque faz com que os homens, que pouco se amam, se procurem e se relacionem. O Estado considerado como uma calamidade pública, e por prudência toma medidas para o combater. O aborrecimento como o seu extremo oposto, a fome, pode impelir o homem aos maiores desvarios; o povo precisa panem et circenses. Fundado na solidão e na inatividade, o rude sistema penitenciário de Filadélfia faz do aborrecimento um instrumento de suplício tão terrível, que mais de um condenado temse suicidado para fugir a ele. A miséria é sofrimento pungente do povo; o desgosto é para os favorecidos. Na vida civil, o domingo significa o tédio, e os seis dias, o desgosto. A Felicidade é um Sonho. Sentimos a dor, mas não a ausência da dor; sentimos a inquietação mas não a ausência; o temor, mas não a tranqüilidade. Sentimos o desejo e a aspiração, como sentimos a sede e a fome; mas, apenas satisfeitos, se acabam, como o bocado que, uma vez engolido, já não existe para o nosso paladar. Enquanto possuamos os três maiores bens da vida, saúde, mocidade e liberdade, não temos consciência deles, e só com a perda deles é que os apreciamos, porque são bens negativos. Somente os dias de tristeza é que nos fazem recordar as horas felizes da vida passada. À medida que os prazeres aumentam, nossa sensibilidade diminui; o hábito já não é um prazer. As horas passam lentamente quando estamos tristes; correm rapidamente quando são agradáveis; porque a dor é positiva e faz sentir sua presença. O aborrecimento nos dá a noção do tempo e a distração nos faz esquecer. Isto prova que a nossa existência é mais feliz quando menos a sentimos: de onde se deduz que mais feliz seríamos se nos livrássemos dela. Uma grande alegria, assim não a julgaríamos se ela não viesse atrás de uma grande dor. Não podemos atingir um estado de alegria serena e duradoura. Esta é a razão porque os poetas são obrigados a rodear seus protagonistas de tristes ou perigosas circunstâncias, para no fim os livrar delas. No drama e na poesia épica, o herói sofre mil torturas: nos romances os heróis lutam pondo em relevo os tormentos do coração humano. A felicidade não passa de um sonho dizia Voltaire, tão favorecido pelo destino? a única realidade é a dor . E acrescenta: Há oitenta anos que a experimento e nada faço senão resignar-me e dizer a mim mesmo que as moscas nasceram para serem comidas pelas
aranhas, e os homens para serem devorados pelos desgostos . O Eterno Estribilho. Vista exteriormente assombra a insignificância da vida da maioria dos homens, vista interiormente é sinistra e lúgubre. Formada por inúmeras dores e aspirações impossíveis, o homem passa sonhando pela meninice, mocidade, virilidade e velhice, rodeado de idéias banais. Os homens assemelham-se a relógios que não sabem porque andam: cada vez que um novo ser nasce, dá-se corda no relógio da vida humana para seguir repetindo o eterno e gasto estribilho de uma caixa de música, frase por frase, compasso por compasso, com pequenas variações. Joguetes da Natureza. O homem, cada um dos homens, é um sonho a mais, um sonho fugaz criado pela tenaz e constante vontade de viver, imagem efêmera que o espírito infinito da natureza desenha na página do tempo e do espaço; impressa nela alguns instantes logo se desfaz para dar lugar a muitas outras. O mais triste, o ponto que nos deve fazer pensar profundamente, é que a vontade de viver há de pagar cada uma dessas imagens efêmeras e caprichosas com o preço de dores profundas e inúmeras, e da morte por longos anos. Eis porque nos tornamos repentinamente sérios perante um cadáver. O Teatro e os Artistas. O mundo é um vasto campo de batalha onde os seres somente devorando-se uns aos outros conseguem conservar e defender a vida; onde todo animal carnívoro é o túmulo vivo de tantos outros; onde o viver significa sofrer longos tormentos; onde a capacidade para a dor aumenta na proporção da inteligência, e atinge, portanto, no homem o mais elevado grau. Os otimistas quiseram adaptar o mundo ao seu sistema, e apresentá-lo a prior como o melhor dos mundos possíveis. O absurdo é evidente. Dizem-me para abrir os olhos e contemplar a beleza do céu iluminado pelo sol, as montanhas, os vales, as torrentes, as plantas, os animais, que sei eu! Acaso será o mundo uma lanterna mágica? A contemplação é bela, confesso, mas aí representar, é coisa completamente diferente. Após o otimista surge o homem que nos fala das causas finais, e elogia as sábias leis que preservam os astros de se chocarem no seu percurso; que evitam o mar e a terra de se confundirem, e os mantém separados; que faz com que nem o frio nem o calor sejam eternos, e que, pela inclinação da eclítica, não permite a primavera, ser eterna podendo assim amadurecer os frutos, etc. Mas tudo isso não são mais que simples conditiones sine quibus non . Porque se os planetas devem ter uma existência mais longa, embora seja o período que demora em chegar a eles a luz de uma estrela longínqua, e se não desaparecem após o nascimento, era preciso que as coisas estivessem mal arquitetadas, para que a base fundamental ameaçasse ruína. Chegamos aos resultados desta obra tão elogiada, e observamos os atores que se movimentam nesta, tão sábia e solidamente construída. Vemos que a dor aparece juntamente com a sensibilidade, e à medida que esta se torna inteligente, a dor e o desejo caminham par a par, e o primeiro chega a tal desenvolvimento que finalmente, a vida do homem nada mais é que um assunto trágico ou cômico. A sinceridade de certos homens não lhes permite a união ao coro dos otimistas, e com eles entonar a aleluia. A Vida é um Pesado Gracejo. Se considerarmos a vida objetivamente, é duvidoso que ela seja preferível ao nada. Atrever-me-ia até a dizer que se a reflexão e a experiência pudessem fazer um acordo, elevariam a voz em favor do nada. Se batêssemos nas pedras dos sepulcros e perguntássemos aos mortos se querem ressuscitar, moveriam negativamente a cabeça. É esta a opinião de Sócrates na Apologia de Platão. O alegre e feliz Voltaire dizia: Amamos a vida, porém o nada não deixa de ter o seu lado bom . Em outra parte dizia: Ignoro o que seja a vida eterna, mas esta é um pesado gracejo . De Ontem a Hoje. A juventude é uma infatigável aspiração de felicidade; a velhice, pelo contrário, é dominada por um vago e persistente sentimento de dor, porque já estamos nos convencendo que a felicidade é uma ilusão, que só o sofrimento é real. Por isso, o homem sensato deseja mais sofrer que gozar. Em plena juventude, quando eu ouvia bater à porta, saltava de alegria, e pensava: Bom! Alguma coisa sucede . Mais tarde, experimentado pela vida, o mesmo ruído sobressaltava-me de angústia, e pensava: Que sucederá, meu Deus?. A Dura Jornada. Na velhice ao perder os sonhos da sua juventude todo homem que estudou a história do passado e a da sua época, e recolheu o fruto da sua experiência e da alheia, se não estiver com o
espírito perturbado por preconceitos muito arraigados, chegará à conclusão de que este mundo é o reino do acaso e do erro, que é governado a seu modo sem compaixão alguma, auxiliados pela maldade e pela loucura, que ao homem empolgam constantemente. Mil trabalhos e esforços é preciso para impor uma idéia nobre, porque dificilmente encontra uma oportunidade de apresentar-se, enquanto que a vulgaridade artística, os sofismas, a malícia e a astúcia reinam de geração em geração, aqui e alhures sem serem interrompidos.
Nota: 1) Referência à obra A Divina Comédia (Inferno, canto XXXIII), de Dante Alighieri, que viveu entre os anos 1265-1321. Ugolino foi murado numa torre com os filhos. Quando o desespero lhe inspira um gesto equívoco morder as próprias mãos , os filhos lhe oferecem a própria carne para mitigar sua fome. Ugolino recusa. Morrem os filhos. E o pai acaba por lhes comer os cadáveres antes de por sua vez perecer .

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

VENTOS DE DOUTRINA QUE PASSAM

No limiar dos cem anos de aniversário da Assembléia de Deus, pude contemplar nesses 46 anos que tenho de vida e de Assembléia não poucos ventos de doutrina que passaram, e outros que ainda permeiam não só nossa Igreja, mas o meio chamado evangélico. Dos quais gostaríamos de analisar e comentar.
No naufragar da idade moderna, inicio da pós moderna que foi a década de 60 presenciamos a onda do sectarismo e do radicalismo, onde tudo era pecado-assistir televisão, cuspir, beber coca-cola, passear, usar tênis e jens e outras proibições esdrúxulas que não convém citar aqui. Era a onda do taliban religioso em muitas Igrejas pentecostais.Neste mesmo tempo presenciamos a onda da apologia que se fazia a ignorância, proibindo o estudo teológico e outros estudos seculares.
Depois veio a onda dos arrebatamentos(70-80)- fui no céu vi um velhinho de barba branca e roupas cumpridas, vi Jesus, vi Deus, vi Espírito Santo. Vi meu avó, vi o saudoso pastor fulano de tal, mas fui ao inferno também e lá vi saia rachada, cabelo, presília, arco de cabelo, tv, paletó rachado e tinta de cabelo. Quem lembra dessa época? Foi uma onda que passou.
Depois veio a onda das revelações(80-90) 150 profecias e 200 revelações numa vigília de uma congregação com 50 pessoas num único culto. Muitas dessas relevações se converteram em piadas até hoje.Era a banalização da profecia. Um Pastor Presidente chegou a comentar comigo que tinha um movimento desse em sua Igreja que atraía milhares de pessoas e que ele mesmo não concordava com o estilo da vigília, nem ele frequentava, mas não movia uma palha para fazer parar.
Depois veio a onda do terrorismo escatológico em que tudo era rotulado de anti-cristo. O 666 estava na testa de Michael Gorbachov, na barba do Lula, na bota da Xuxa, na embalagem dos alimentos. Alguns entravam no Mercado até com medo do que iam comprar. Essa onda passou.
Depois veio a onda do dente de ouro, já passou.
Depois veio a onda do cair na unção, regressão, quebra de maldição, adoração a anjos, anjo Muriel, anjo Rafael, anjo Salatiel, cadeira reservada para anjos e outras crendices como suco do céu com sabor de morango. Essa onda não conseguiu entrar em nossa Igreja, com exceção de meia-dúzia de pastores, mas depois se envolveram também em escândalos como peculato, lavagem de dinheiro,penhora de templos, sanguessuga e divorcio na familia. Essa onda também já está saindo de moda.
Agora estamos vivendo a onda da teologia da prosperidade, com venda de unção por 900 reais. Ofertas proféticas de mil reais. Curandeirismo em detrimento da pregação do evangelho que é a verdadeira profecia e a introdução de liturgias do candomblé em cultos pentecostais como vomitar cobra, engolir cobra, fumar dentro do templo para nunca mias fumar. Colar o pé no chão. Colar as mãos. Dança em círculo no ritmo da candomblé, roda pião, aviãozinho, imitar animais, engatinhar no púlpito imitando gato, leão, cordeiro. Isso aconteceu recentemente com uma cantora gospel famosa. Retorcer o corpo como se estivesse fugindo de bala, caratê, metralhadora e gargalhada e muitas outros trejeitos do neopentecostalismo hodierno.
Outra onda perigosa que quer entrar é o endeusamento dos líderes religiosos, ícones dos movimentos pentecostais. O endeusamento de Pastores ricos e famosos e consumistas em detrimento da piedade e da simplicidade que é característica inalienável do evangelho da cruz do Senhor Jesus.
A unica coisa coisa que não é moda, nem onda, nem vento e´o evangelho puro do Senhor Jesus, isso não vai passar. Jesus disse: passarão os céus e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar. Todas essas crendices passaram, outras passarão, mas o evangelho simples que a Assembléia de Deus abraçou foi a causa de se tornar uma denominação respeitada no mundo. A virtude do evangelho que sempre pregamos que transforma um homem degradado em uma nova criatura é a base que deve nortear o destino de uma verdadeira Igreja.

Pr. Jesiel Padilha

domingo, 2 de janeiro de 2011

NAO REMOVAS OS MARCOS ANTIGOS

Não poucas vezes temos nos deparado com jargao evangélico copiado parcialmente da bíblia e fora de contexto que nada tem a ver com o verdadeiro sentido do texto. Por exemplo"Não removas os marcos antigos" Pv 22.28 e 22.22.Nao obstante provérbios ser um livro sem contexto, o que o escritor quis dizer com todas letras foi que não devemos remover os limites das terras que foram distribudas proporcialmente entre as famílias. Veja o versículo 22 do mesmo capitulo "não roubes o pobre nem atropeles o aflito".
No capitulo 23 de provérbios e versículo 10 diz para não remover os limites antigos nem invadir o campo dos orfaos.Em deuteronimio, livro de Leis e bem contextualizado proíbe que os marcos dos limites dos terrenos dos vizinhos estabelecidos pelos antigos sejam removidos, ou invadidos. A ordenança bíblica e uma preocupação com a questão social prevenindo a iniquidade no meio do povo. A iniquidade contrasta com a equidade que e a justiça social.
Era comum naquela época os ricos se aproveitarem dos pobres, invadindo seus terrenos ou hipotecando terras de pessoas endividas. Deuteronomio 27 diz "maldito aquele que remover os limites do campo do seu próximo".
As Leis do Antigo Testamento eram classificadas pelos rabinos em leis religiosas, Leis cerimonias, leis sanitárias, leis civis, sociais e criminais.
Deus tem uma preocupação com a equidade social, por isso proíbe a opressão e a invasão dos direitos dos pobres. Jesus em Mateus 23.14 denunciou os lideres religiosos que devoravam os campos e ate a casa das viuvas com pretexto de longas orações.Em Levítico 25. 28 todos os que perdiam seus campos por dividas, no ano do jubileu suas terras tinham que ser devolvidas.
Nos últimos dias aqui no Brasil foi postado um vídeo politico por um pastor que denunciava a iniquidade, mas sem ter uma base bíblica do que venha a ser exactamente a iniquidade. A imoralidade pode ser definida como iniquidade, mas biblicamente a essência da palavra iniquidade e a injustiça social. Os governos conservadores perpetuaram a iniquidade em vários países sem nunca ter a preocupação com a equidade, ou seja o equilíbrio social de um povo. A disparidade social em muitos países tem trazido trágicos e nocivos efeitos sociais que produz infelicidade e miséria.
Hoje estamos no tempo da teologia da prosperidade em que muitos lideres religiosos fazem lavagem cerebral para arrancar dinheiro dos pobres com pretexto de que vão enriquecer. Mas na verdade quem esta enriquecendo sao eles.Isaías denunciava os lideres de sua época dizendo"qual e o jejum que Deus se agrada, o jejum que Deus se agrada e que soltes a ligadura da impiedade,desfaças as atadura do jugo,e para de oprimir os necessitados e reparta o pão como faminto Isaías 15.58. Essa teologia da prosperidade esta a serviço da iniquidade, que fede no olfato de Deus.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O QUE É BLASFEMAR CONTRA O ESPÍRITO SANTO

A BLASFÊMIA NO CONTEXTO BÍBLICO

O tema blasfêmia contra o Espírito Santo foi abordado por Jesus em Mt 12.22-30 em razão da oposição dos líderes religiosos de sua época em quererem profanar os feitos de Jesus, atribuindo a Satanás o milagre por Ele realizado. Jesus, no entanto, enquadra os Fariseus na transgressão das Leis cerimônias mais sagradas do Antigo Testamento. Ele afirma categoricamente que a zombaria e o desprezo pelo culto sagrado engendrado pelo Espírito Santo por parte de pessoas que lideram o culto e o fazem deliberadamente usando o nome de Deus em vão afrontam e profanam o que é de mais sagrado – o ministério do novo testamento, o ministério do Espírito Santo, o ministério da reconciliação de Deus para com os homens através da pessoa do Senhor Jesus.
Quando Jesus fez essa afirmativa impingiu nesses líderes uma marca registrada bem conhecida no Antigo Testamento, a apostasia de Satanás através de Caim que matou seu irmão. Balaão que amaldiçoou e tentou profanar o sagrado. Core que se rebelou contra Moisés. Essa classificação de blasfêmia já era bem conhecida dos líderes religiosos do judaísmo e foi denominada por Jesus como apostasia.
A blasfêmia aqui é dentro de contexto teológico pastoral, não se trata de crente que se desviou da Igreja. Não se trata de crente que se batizou três vezes ou voltou para a idolatria. Não se trata de crente leigo rebelde, tampouco crente que virou feiticeiro ou budista, ou kardecista. Nem ainda trata-se de pessoas que zombaram do Espírito Santo.
O contexto próximo, isto é, os versículos que veem antes e depois reportam exclusivamente a atitude deliberada de oposição ao reino espiritual do evangelho por pessoas que lideravam a religião judaica.
Jesus foi morto seis dias depois de expulsar os vendedores do templo e os acusou de ter transformado a casa de oração em covil de ladrões. A presença de vendedores nos arredores do templo era um mal necessário, pois o judeu viajante não podia trazer sua oferta pela moeda pagã, precisava trocar pela moeda judaica, como também a comodidade de comprar um animal perto do templo.
Ocorria que toda transação comercial ao redor do templo tinha que ter a chancela dos sacerdotes e a eles era repassado propina de tudo que era comercializado. Ao denunciar e expulsar os vendedores, Jesus arrumou grande encrenca, pois mexeu no bolso dos sacerdotes. Foi a gota d'Água para transbordar o ódio dos líderes religiosos, que detinham o poder no Sinédrio para julgar, condenar e matar.
Não só esse fato denota a preocupação de Jesus em alertar as ovelhas para ter cuidado com os lobos devoradores e mercenários que permeiam o meio religioso, como também todo escopo dialético de seus sermões segue uma linha doutrinária de advertência para os crentes e repulsa pela ação dos obreiros fraudulentos.
Jesus teve asco desse tipo de líder religioso que usa o nome de Deus em vão transgredindo o III mandamento do decálogo. Usar o nome de Deus em vão para seu próprio interesse e não o interesse do reino de Deus, interpretando a bíblia de acordo com a própria conveniência é um pecado que deve ser combatido veementemente nos ensinos do Novo Testamento.
Em todo seu ministério Jesus dedica boa parte de suas homilias nesse tema: acautelai-vos dos falsos profetas dos fariseus, dos falsos líderes religiosos que veem com pele de cordeiro, mas são lobos devoradores.
Há uma doutrina bem articulada em cadeia de temas sobre esse assunto em todo o Novo Testamento, começando por João Batista que denunciou os fariseus e Saduceus chamando-os de raça de víboras, passando por Jesus que rechaçou a apostasia em seus discursos. Paulo, João e Pedro vão na mesma direção e classificam os obreiros fraudulentos como os que seguem a apostasia, são nuvens sem águas, estrelas errantes, árvores infrutíferas, duas vezes mortas.
Em Mt 7.15 Jesus adverte os discípulos com alerta de emergência: acautela-vos dos falsos profetas. Ele afirma que uma árvore boa não pode dar maus frutos e pelos frutos nós podemos conhecer. No versículo 21 Jesus adverte dizendo: nem todo religioso entrará no reino de Deus, mas aquele que faz a vontade de Deus..
No versículo 22 do capítulo 7 de Mateus Jesus disse com todas as letras que muitos pregadores fariam milagres, suas mensagens salvariam muitas pessoas, mas eles mesmos não entrariam jamais no reino de Deus.
No versículo 11 do capítulo 8 Jesus disse que muitos que se gloriavam por ter a chave do céu, pensando ser detentor do monopólio eclesiástico seriam lançados nas trevas exteriores e pessoas desconhecidas e de longe seriam congregadas ao reino de Deus sentando a mesa com Abraão.
Em Mt 10.16 Jesus nos envia para trabalhar como ovelhas no meio de lobos. Essa advertência denota a preocupação de Jesus nos alertando sobre pessoas perigosas no meio do seu povo. Neste mesmo capítulo e versículo 34 Jesus chama os líderes religiosos de raça de víboras alusão à tentação do Éden, a síndrome de Satanás. Quando alguns deles reivindicam para si a exclusividade do sacerdócio religioso de sangue e de genealogia, Jesus os chama de filhos do diabo, pois corre em suas veias a síndrome de Satanás.
Jesus os qualifica de condutores cegos que honram a Deus com suas palavras, mas seus corações estão longe de Deus. Inventam uma doutrina nova para arrancar dinheiro do povo e devoram até a casa das viúvas pobres.
Jesus chega a afirmar nesse contexto que a árvore que ele não plantou será tirada, deixando implícita a rejeição desses falsos líderes, portanto a apostasia, o mesmo que blasfêmia contra o Espírito Santo.
Em Mateus 16.6 mais uma vez usa a palavra acautelai-vos e no contexto qualifica tais obreiros de geração má e adúltera.
A parábola da figueira estéril em Mt 21 é um quadro ilustrativo da rejeição dos que não querem voltar ao primeiro amor e não podendo mais produzir bons frutos se tornam fortes candidatos a rejeição.
Em Mt 23 Jesus censura os escribas e fariseus na mesma linha do Profeta Isaías proferindo sentenças condenatórias imprescritíveis e inafiançáveis aos que se opunham a doutrina sadia do evangelho de Jesus. Isaías foi morto por denunciar os líderes religiosos associados com a política da época e refutou suas religiosidades que estavam desprovidas da verdadeira piedade.
Em Isaías 58 diz qual é o jejum que Deus se agrada? é aquele que despedaças a atadura da impiedade, da opressão para com os mais pobres, que repartas o pão com o faminto, cubra o nu e ajude o necessitado. Essa profecia contra os líderes da época de Isaías ficou famosa com os ais do profeta.
Jesus segue a linha de Isaías e desencadeia os ais contra os líderes religiosos do judaísmo. Ai dos escribas e fariseus que pensam ter a chave do céu, não entra no céu e tentam impedir que outros entrem. Ai deles porque devoram os pobres e as viúvas. Ai deles porque são condutores cegos. Ai deles porque juram pelo céu e pelo templo, mas somente para profaná-los. Ai deles porque são hipócritas perdendo tempo com costumes periféricos e esquecem da verdadeira doutrina. Ai deles porque o vaso da liturgia religiosa está brilhando por fora, mas por dentro está podre. Ai deles que parecem sepulcros pintados por fora, mas podres por dentro. Ai deles porque se justificam perante os homens com pretexto de santidade.
No capítulo 24 Jesus adverte sobre os sinais dos tempos nos últimos dias. Um dos principais sinais ou um dos primeiros é a proliferação de falsos profetas no meio do povo de Deus.
Você caro leitor pode assimilar tudo que foi escrito até aqui no evangelho de Mateus e aplicar para os líderes de hoje, você pode enquadrar aqueles que não mais pregam a sã doutrina, mas buscam apenas seus interesses medíocres, principalmente os de acumular riquezas, fama, glória, holofote e poder eclesiástico.
Jesus repudiou o poder político, quando afirmou que o seu reino não era deste mundo. Repudiou o uso indevido do poder eclesiástico quando repudiou o monopólio dos Escribas e Farizeus que ostentavam ter a chave do reino de Deus, além de não entrarem no reino de Deus se tornaram empecilho para outros entrarem.
Jesus repudiou o holofote ao rechaçar a gana do Fariseus e Saduceus pelos primeiros assentos. Não aceitou bajulação, mas veio para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.
Jesus enalteceu o caráter de João Batista como homem inigualável por sua capacidade de reconhecer a grandeza de Jesus e sua própria debilidade. João Batista não reivindicou honraria, título, posto eclesiástico. Reivindicou a função de canal de benção para as pessoas. João afirmou ser a voz que clama, ele reconheceu que Jesus era a palavra viva, o verbo vivo, e João apenas uma voz. O slogan do ministério de João Batista era seguinte: “importa que Jesus cresça na mesma medida em que eu diminua”.
Jesus cresceu em graça e conhecimento, mas o segredo do seu ministério foi a forma com atuou. Os falsos profetas buscam glória e estratégias para suplantar, Jesus usou a simplicidade e amou apaixonadamente as pessoas, principalmente o povão da periferia, alijado dos projetos políticos sociais.
A parábola do bom Pastor retrata a importância do ministério de Jesus como pastor que ama a ovelha desinteressadamente, mas ao mesmo tempo faz questão de ressaltar o cuidado que se deve ter com o ladrão. Há quem interprete o ladrão como o diabo. Mas no caso dessa parábola não cabe a interpretação. O ladrão aqui é o falso pastor, é o falso profeta. É aquele que mata a ovelha para comer ou para vender. É o que estamos vendo nos dias de hoje. A espoliação do povo em nome da teologia da prosperidade que procura arrancar dinheiro do povo a qualquer custo com pretexto de que a finalidade é pertinente.
Nós como protestantes, devemos protestar contra os que usam o nome de Deus em vão e transgridem o III mandamento usando o nome de Deus para o seu próprio interesse e não o interesse do reino de Deus.
Jesus disse: todos os que vieram antes de mim são ladrões e salteadores, observe que não se trata do diabo. Ainda que o diabo é ladrão, mas não nessa parábola. Jesus se referiu as pessoas que usaram títulos eclesiásticos com promessas falsas de messianismo para reforma do judaísmo e do cristianismo.
O mesmo termo é usado na purificação do templo ao classificar os dirigentes do templo como ladrões. Vós transformastes minha casa em covil de ladrões.
No contexto de João 10 o ladrão é classificado como mercenário. Pedro em sua II epístola capítulo 2 e versículo 15 enquadra o profeta Balaão como mercenário que amou o prêmio de Bozor. Ele é classificado com Judas e Core na Epístola de Judas e os três são assemelhados a manchas nas festas religiosas, nuvens sem água, árvores infrutíferas, duas vezes mortas, destinados ao fogo eterno, portanto apostataram da fé e foram rejeitados, por isso blasfemaram contra o espírito Santo, pois usaram a função para profanar o sagrado.
Em Marcos 7 Jesus rechaça a hipocrisia dos Fariseus acusando-os de honrar a Deus com os lábios, mas seus corações estão longe de Deus. Ao fazer esse comentário Jesus interpretou a profecia de Isaías como sendo dirigida a eles. No mesmo capítulo Jesus afirma que os líderes da época invalidavam o mandamento de Deus para preservar tradições e comentários paralelos a Lei.
Jesus disse para os fariseus que o que contamina é o que sai do homem não o que entra. E que eles lavavam vasos e jarros e tinham toda aquela preocupação com o ritual, mas o interior destes vasos estava podre. O trocadilho irônico era pertinente, pois eles realmente se tornaram religiosos de casca.
Os maus pensamentos, o adultério, a prostituição, o homicídio, a avareza, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, o orgulho, segundo Jesus eram ingredientes que saiam de dentro do coração daqueles religiosos destilando veneno ás pessoas que os cercavam.
Os discípulos de Jesus são advertidos sobre o fermento dos Fariseus que buscavam milagres e sinais mirabolantes para impressionar o povo. Jesus afirmou em Mc 8 que nenhum sinal seria dado aquela geração. Jesus não reivindica para si poder espiritual para impressionar pessoas, pois ele é o verdadeiro poder.
A espiritualidade dos fariseus e Saduceus era uma espiritualidade de aparência emocional para impressionar o povo. Jesus não grita, não esmurra púlpito, não sapateia, mas suas palavras penetram profundamente nas pessoas e elas são impactadas pelo poder de suas palavras.
Quando Jesus aborda sobre o tema escândalo em Mc 9.42 está associando movimentos religiosos que usam o nome de Deus. E pode até usar, mas com responsabilidade. O fato de alguém estar num segmento religioso do qual não faz parte do meu convívio, não significa que devo descartá-lo. Haverá um julgamento para cada segmento religioso, aliás o julgamento já é feito.
O escândalo estará sempre seguindo aqueles que usam o nome de Deus em vão. Jesus disse: Ai daquele que escandalizar pessoas simples e humildes. A sentença para quem escandaliza o evangelho é penosa e sem escapatória. Na concepção de Jesus o lago de fogo espera pelos que causam escândalo. E partindo daqueles que detém o monopólio religioso a coisa fica muito pior, porque Jesus disse que aquele que mais ensina, dele será mais cobrado. Aquele que mais prega, que mais administra as riquezas espirituais do reino de Deus terá um julgamento mais apurado, menos tolerante.
No capítulo 12 de Marcos quando os Fariseus e Saduceus o interrogaram acerca do tributo romano, Jesus responde afirmando que eles estavam acostumados a tentar a Deus. Esse mandamento foi firmado por Moisés em Dt 6.16, transgredido por Adão no Éden e aprovado por Jesus no deserto. Jesus disse para Satanás: Não tentarás o Senhor teu Deus, pois está escrito na Lei.
A tendência dos líderes religiosos transgredirem esse mandamento é proporcionalmente maior do que em leigos, pois o fato de lidar todos os dias com a administração religiosa propicia uma calosidade em que a sensibilidade pode ser pulverizada na medida em que quem lidera o ritual se apodera de uma coisa que não lhe pertence.
O poder e a glória pertencem a Deus, nós apenas administramos e quando rotineiramente lidamos com isso, somos tentados a nos apoderar de um título que não é nosso, de uma vocação que foi outorgada. Muitos por não saber diferenciar esse limite caem no erro e perdendo a sensibilidade tentam a Deus.
Tentar a Deus é confiar que mesmo no erro Deus nos dará o escape, pode até acontecer, mas até quando? Até quando a taça vai transbordar. Até quando pessoas usarão o nome de Deus e ficarão impunes. Nesses últimos dias Deus tem exortado seus lideres a buscar a conversão, como o antigo Testamento exortou os sacerdotes. No Novo Testamento João batista exortou os Fariseus dizendo: arrependei-vos e convertei-vos, produzi ,pois frutos dignos de arrependimento e não presumais em vós mesmos dizendo: somos filhos de Abraão, temos o monopólio do reino de Deus.
Aqui há um forte indício de tentar a Deus, pois a pessoa passa a confiar num título religioso que não lhe pertence, foi outorgado por Deus, mas pode ser tirado a qualquer momento e a pessoa ao se descuidar disso pode cair no erro de que nada de mal lhe sobrevirá. Essa pessoa pode tentar a Deus como aquele que acelera seu carro a 180 km por hora. Ou aquele que sofrendo de diabete come uma rapadura sozinho. O mesmo que brincar com o pecado. O mesmo que abusar da bondade de Deus. O mesmo que abusar das prerrogativas. As prerrogativas são boas, mas não devemos abusar delas, pois assim estaremos tentando a Deus, cometendo um pecado que Jesus repudiou perante Satanás.
Satanás tentou a Deus quando por ocasião de sua audaciosa conspiração quis se assentar no trono do altíssimo. Sua tentativa foi uma atitude de tentar a Deus, além da soberba que brotou do seu coração. Por isso Paulo nos adverte para não separarmos obreiros despreparados para que não caiam na condenação do Diabo.
Na conclusão do evangelho de Marcos Jesus fala de sua vinda e faz questão de reforçar como nos outros evangelhos que um dos sinais evidentes de sua vinda é a proliferação de falsos profetas, falsos cristos, enganadores, fundadores de religião.
A traição de Judas é um indício da síndrome de Satanás. Ele como um dos príncipes do Senhor Jesus se tornou traiçoeiro e mercenário, pois, vendeu o que não se pode vender: a confiança e a fidelidade. Pedro afirma em atos que o salmista já havia falado a respeito de Judas no salmo 109 dizendo: 6.põe acima dele um ímpio, e Satanás esteja a sua direita. 7.quando for julgado saia condenando; e em pecado se lhe torne a sua oração. 8.Sejam poucos os seus dias, e outro tome seu ofício. 9.Sejam órfãos os seus filhos, e viúva sua mulher. 13. desapareça sua posteridade e fique deserta sua habitação.
Judas é citado por Jesus como filho da perdição. Pedro e Judas classificam os ministros do evangelho que entraram pelo caminho da apostasia como Apóstolos de Satanás. E a sentença é atribuída a eles com bastante rigor. São como cães que engolem o próprio vômito, ou a porca que volta a lama. A comparação é pertinente, pois, a blasfêmia caminha com apostasia que caminha com a rejeição.
A blasfêmia contra o Espírito Santo no estudo do Novo testamento ganha um escopo doutrinário bem específico para o ministério eclesiástico, com a finalidade de preservar os crentes alertando-os a luz das escrituras e alertar os líderes religiosos para que não entrem por esse caminho, pois pode ser um caminho sem volta. O caminho de Balaão e de outros que profanaram o sagrado usando a função eclesiástica.