quarta-feira, 20 de julho de 2011

CIDADANIA E CRISTIANISMO

A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social. ”

A cultura grego-romana há mais de dois mil anos institui os parâmetros para os processos articuladores da cidadania, como por exemplo, a instituição do senado, do voto, dos direitos e deveres dos cidadãos dentro de um estado organizado por poderes instituídos. Deus, no entanto, já havia se preocupado com isso quando entregou as tábuas da Lei para Moises e outras leis que permitiam garantir os direitos dos judeus dentro da comunidade e regulavam os deveres de cada judeu para o exercício da cidadania do povo de Israel.

As duas tábuas da Lei representavam todo este conjunto de leis do Pentateuco.

I. Cidadania no Antigo Testamento

O Antigo Testamento era uma aliança que visava preservar a cidadania de um povo, fazendo com que este povo desse exemplo positivo ao mundo e através deste povo cumprir a promessa da vinda do Salvador e redentor Jesus Cristo.

A primeira tábua que Moises recebeu escritas pelas mãos do Senhor trazia esta proposta e visava a estabilidade social deste povo. Ela tinha quatro códigos, aquilo que o homem deve a Deus. A segunda tábua com a mesma finalidade tinha seis códigos, deveres do homem para com o homem.

I. Não terás outros deuses.

Este código é pertinente à alteridade, ou seja, leva o homem a adorar ao único e verdadeiro Deus. Ao mesmo tempo visa organizar a sociedade a obediência da instituição maior e mais sagrada que existe, àquele que é Rei, Juiz, legislador e senhor. As leis que regulam as cerimônias religiosas estão em Lv capitulo 1 ao 9.

II. Não farás para ti imagem de escultura.

Este código tem um significado muito mais abrangente do que se pode imaginar. A imagem está relacionada àquilo que pode distrair o ser humano desviando-o dos verdadeiros valores. O valor maior que é Deus e os valores e virtudes inerentes ao ser humano que propiciam o bem comum da sociedade. O termo “não te encurvarás á imagens” é claro.

III. Não tomarás o nome de Deus em vão.

Este é o mandamento contra qual as religiões mais pecam, pois algumas usam o nome de Deus em vão, com textos isolados da bíblia, reforçando teorias não para o interesse do Reino de Deus, mas para o seu próprio interesse.

Além de corrigir distorções bíblicas e heresias, evita que um líder faça injustiça ao povo querendo colocar um fardo que Deus não instituiu para o povo, preservando as garantias da cidadania do povo.

IV. Lembra de um dia de descanso.

No hebraico o termo não significa o 7º dia, mas descanso, portanto um dia de descanso que proporciona ao ser humano mais tempo para se dedicar a Deus. Ao mesmo tempo da ao ser humano um direito que visa preservar sua saúde, já que esta maquina fabricada por Deus precisa de descanso. Este direito nos beneficia até hoje nas garantias das jornadas de trabalho e dos dias de descanso. As leis sanitárias que visam preservar a saúde do povo está regulamentada em DT 14, Lv 11, 12,13,14,15.

V. Honra o teu pai e tua mãe.

Este mandamento esta relacionado ao código civil, e já é da segunda tábua, deveres do homem para com o homem. Este mandamento valoriza a família, célula matiz da sociedade. A família bem estruturada e saudável certamente produzirá uma sociedade saudável. Os direitos e deveres de família são as leis civis regulamentadas por Moises em Deuteronômio 20,22 e 24.

VI. Não matarás

Este mandamento se relaciona ao código criminal e está regulamentado em Dt 19 Êxodo 21 a 23. DT 35.30 a 34

VII.Não adulterarás

Este mandamento, também na área civil esta relacionado à família e suas garantias. Sua regulamentação está em Dt 20, 22 e 24 e Êxodo 21 a 23, Lv 18. O adultério é como arrombar a cerca que demarca o limite de uma família, é como arrombar uma porta do vizinho. E um convite a guerra e destruição da família.

VIII.Não furtarás

Esta lei é de código penal e sua regulamentação está Êxodo 21 a 23 e também está relacionada a leis sociais e econômicas Dt 15, Nm 21, lv 25 e 26.

IX. Não dirás falso testemunho

Este código está relacionado a danos morais e está regulamentado por Ex 23. 1 a 9.

X. Não cobicarás.

Código relacionado a direito de propriedade e respeito à família e herança.Lv 25 e 26 Ex 22 e 23.

O Pentateuco forma um conjunto de deveres e direitos dos cidadãos judeus que alem de pedagógico visa preservar o exercício pleno de cidadania de um povo. Em Dt 28 Moises escreveu inspirado por Deus dizendo: se vocês cumprirem esses deveres vocês terão as garantias da plena cidadania. Serão benditos na terra, na cidade, no campo, seus filhos serão benditos. As colheitas de vocês serão abençoadas e em tudo que vocês tocarem serão abençoados.

Deus não estava preocupado só com os deveres religiosos do povo, mas preocupado com o todo do ser humano, com o seu bem estar em todos os níveis. Portanto é dever do crente exercer sua cidadania nas questões sociais, políticas, econômicas, educacionais, culturais, geográficas e religiosas.

II. A cidadania no Novo testamento

No Novo Testamento temos Jesus como mediador de uma nova aliança, com uma nova proposta. O cântico de Maria reflete um clamor em defesa da cidadania com vinda do Salvador. Ela disse: despediu os ricos de mãos vazias e encheu de bens as mãos dos pobres.

Jesus desceu de sua gloria para resgatar o ser humano nas garantias de cidadania plena e especialmente na garantia inalienável da cidadania celestial, que é a vida eterna. A prova está nos escritos dos evangelhos, cujo tema central é o reino de Deus.

O que e o reino de Deus?

Do grego basiléia, significa o plano Universal de salvação para resgatar o ser humano. O reino de Deus é gozo, paz e alegria no Espírito Santo. Rm 14.17

Os judeus esperavam o reino de Deus na perspectiva dos tempos áureos do rei Davi. Um reino de glamour e de esperança para o resgate da cidadania judaica. Jesus, porem, trouxe um reino espiritual que governa o centro das emoções do ser humano e o resgata da iniqüidade que é corrupção nos seus diversos níveis. Daí que o reino de Deus é uma proposta divina de conquista.

Enquanto os romanos queriam conquistar etnias com suas riquezas, o Reino de Deus queria conquistar pessoas para o exercício da cidadania aqui e agora e principalmente para o exercício da cidadania celestial. Tanto que o Reino de Deus está em duas esferas, a esfera presente e a futura. Para entrarmos na futura, temos que exercitar a esfera presente.

II. 1. A cidadania no Reino presente

Em Mt 3.2 João Batista começou pregar no deserto anunciando: arrependei-vos, porque o reino de Deus já esta presente entre vós. A primeira proposta e exigência para entrar no reino é mudança de postura, de vida, de comportamento, porque para entrar no reino futuro tem que estar no reino presente. Jesus havia nascido. Tornou-se homem no cumprimento das promessas da Antiga aliança. Manifestou para desfazer as obras do Diabo.

II. 2.Como se processa o reino de Deus?

*O reino de Deus gerou a Igreja-comunidade universal dos filhos de Deus.

*Deus e doador do reino, os homens podem pregar o reino, mas somente Deus dará aos homens. Lc 10.9 Lc 12.32.

*A Igreja e a estrutura do reino de Deus, coluna e firmeza da verdade Mt 16.19.

*Jesus e o Rei, dai que devemos obedecer a suas palavras. Jesus disse: quem guardar as minhas palavras, meu pai o amará, viremos para ele e faremos nele morada.

*O Espírito Santo e a dinâmica do reino de Deus, inaugurou a Igreja com poder Pentecostal e Ele convence o homem do pecado, da justiça e do juízo. Jo 16.8,9,10.

*O evangelho é o poder do reino. Rm 1.16

*Os súditos deste reino são os crentes que nasceram de novo por obra e graça do espírito santo. Joao 3.5.

II. 3.Por que Deus quis nos dar o Reino?

Porque o reino dos homens havia se corrompido com ganância, com a mentira, com a vaidade, com a iniqüidade, com a hipocrisia, com o orgulho, com a devassidão e todas as obras infrutuosas da carne. Por isso o Espírito Santo produz um fruto de graças que combate essas obras malignas.

E acima de tudo porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o filho unigênito para todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna. Jo 3.16.

II. 4.Para que Deus quis nos dar o reino?

Para nos resgatar do reino das trevas e nos transportar para o Reino do seu filho amado a fim de nos reconciliar com Deus, nos fazendo irrepreensíveis para produzirmos bons frutos e Co 1.13,20, 22.

E para dissipar o reino das trevas Mt 12.28

II. 5.Quem pode entrar no Reino?

Os que praticam o exercício da cidadania aqui e agora, os que se arrependem e mudam de postura pelo reino, os humildes, os limpos de coração, os mansos, os pacificadores, os perseguidos por causa da justiça, os que ensinam e cumprem os mandamentos, os que praticam a justiça, os que fazem à vontade do Pai. Mt 5.1-16. Mt 7.21 Os que de longe, do ocidente e do oriente quem vêem em busca do reino. Mt 8.11.

II. 6. Quem não entrará no Reino de Deus?

Os que confiam em riquezas MT 19.23, Mc 10.23

Os religiosos que não obedecem à vontade do Pai Mt 7.21.

Os devassos, os idólatras, os adúlteros, os efeminados, os bêbados, os maldizentes, os ladrões. I Co 6.9.

Os impuros, os avarentos, o mesmo que idólatra. Ef 5.5.

Os cães, os feiticeiros, os adúlteros, os idolatras e os mentirosos Ap 22.15

Os injustos I Co 6.9.

II. 7. O que não e o Reino de Deus

Não e monopólio eclesiástico Mt 8.11

Não e comida, nem bebida, nem consumismo Rm 14.17.

Não é religiosidade. Mt 7.21

Não consiste em palavras persuasivas, mas poder do Espírito Santo I co 4.20.

II. 8. Qual deve ser nossa postura em relação ao Reino?

Deve ser buscado com oração e atitudes Mt. 6.33

Devemos buscar a humilde posição das crianças Mt 18.3

Devemos pregar o Reino e ensinar sobre ele Mc 16.15 Mt 28.19

Devemos priorizar o Reino Mt 6.33

Devemos obedecer ao Reino MT 7.21

Orar por sua vinda Mt 6.10

Recebê-lo, herdá-lo e possuí-lo Mc 10.15 Mt 25.34.

Entrar nele Mt 23.13

Procurar por ele Lc 23.51

Esperar por sua vinda Mc 15.43

II. 9.Quais os mistérios e paradoxos do Reino?

Nem todos têm o privilégio de conhecê-lo Mt 13.11

O reino é dos pequenos mt 18.3

Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros no Reino

Meretrizes e pecadores precedem religiosos no reino Mt 21.31

O reino será tirado de muitos religiosos e dado a quem produz frutos. Mt 21.43

O reino de Deus não vem com aparência Is. 53 Lc 17.20

Satanás oferece a beleza e a gloria deste mundo em troca do Reino de Deus.Lc 4.5,6

Os pobres são fortes candidatos ao Reino de Deus. Lc 6.20

O menor no reino de Deus e maior do que o maior no reino dos homens. Lc 7.28

Muitos convidados ficarão de fora do reino, e muitos não convidados entrarão no reino de Deus. Lc 14.15-18

No Reino dos homens, você ganha quando conquista;

No Reino de Deus você ganha quando abre mão. Mt 10.39

No Reino dos homens você ganha ajunta;

No Reino de Deus você ganha quando entrega. Mc 8.35

No Reino dos homens você ganha quando e esperto;

No Reino de Deus, você ganha quando sabe esperar e confiar. Sl 125.1.

No Reino dos homens você ganha quando está por cima;

No Reino de Deus você ganha quando está por baixo. Lc 7.28

No Reino dos homens você ganha quando esta sob holofote;

No Reino de Deus você ganha quando está em oração no anonimato. Mt 14.13

No reino dos homens você ganha quando é chefe;

No Reino de Deus você ganha quando é servo. Mt 23.11

No reino dos homens você ganha quando todos falam bem de você;

No Reino de Deus você ganha quando é caluniado. MT 5.12

No reino dos homens você ganha quando é orgulhoso e nada lhe falta;

No Reino de Deus você ganha quando aprende depender de Deus. Pv 30.8

No reino dos homens você ganha quando é consumista;

No reino de Deus você ganha quando se contenta com o que tem. Fp 4.8

No reino dos homens você ganha quando é ansioso e preocupado com as coisas materiais;

No Reino de Deus você ganha quando descansa e confia. Mt 6.25

No reino dos homens você ganha quando corre;

No Reino de Deus você ganha quando confia e aproveita as oportunidades. Ec.9.11

II. 10 O Reino de Deus é comparado:

A parábola do trigo e joio

Ao grão de mostarda

Ao homem que encontrando o tesouro, vende o tesouro e compra o campo. Mt 13.44

A rede de pescaria e os pescadores selecionam os bons. Mt 13.48

Ao Rei que convidou nobres e depois convidou pobres e marginalizados. Mt 22.2

A mulher que põe fermento na massa para fazer pão. Lc 13.20

A parábola do filho pródigo

A parábola do samaritano

II. 11.Considerações finais sobre o reino de Deus.

Quem priorizar o reino será recompensados muitas vezes e reconhecido pelo Pai. Lc 18.29 19.11-27

O ladrão da cruz deu o ultimo brado em busca do Reino e alcançou a graça de entrar no reino no mesmo dia. Lc 23.42

Na perseguição, os apóstolos exortavam os crentes a perseverar na fé, pois, por muita tribulação importa entrar no reino de Deus. Atos 14.22

O reino de Deus não pode ser abalado Hb 12.28

A entrada no Reino e seu percurso se fazem com diligencia II Pe 1.10

No juízo final o reino dos homens que e deste mundo passara a ser do Senhor e do seu Cristo e ele reinara para todo sempre Ap 11.15

Depois do juízo final e de ter feito novo céu e nova terra, o Senhor chamara seus escolhidos dizendo: vinde benditos de meu pai possui por herança o Reino que esta preparada deste a fundação do mundo, porque tive fome e me deste de comer; tive sede e me deste de beber; era forasteiro e me acolheste; estava nu e me vestistes; adoeci e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Mt 25.31 a 40.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Onda Gospel

Nos últimos dias temos presenciado a banalidade da palavra evangélico. Antes, ser crente era ser honesto, responsável, leitor da Bíblia, fiel e diferente. Antes, ser crente era até motivo de chacota. Os católicos nos apelidavam de Bíblia, aleluia irmão.Agora os católicos estão dando aleluia e carregando Bíblia.
Agora, ser evangélico é moda. Todo mundo quer ser evangélico. Se tornou corriqueiro dizer:" tal personagem da mídia" virou evangélico.Muitos até se vangloriam.
Domingo próximo passado saiu uma reportagem na Folha de São Paulo uma matéria em que o Papa desprezava mega-templos para abrigar carismáticos, por que, segundo ele a Igreja precisa valorizar qualidade, e não quantidade. Não entraremos no mérito, mas que sirva de lição para nós que estamos nos impressionando com quantidade gospel lotando templos, mas em busca de riqueza, milagre, exceto em busca de transformação de vidas.
O problema é que além de banalizar a palavra evangélico, estamos piorando ao interpretá-la para gospel, isto é, um evangelho importado de um País que valoriza o ter em detrimento do ser.Um modelo que fala de Deus, mas o coração está longe do verdadeiro evangelho. O Brasil sim se tornou um modelo cristão para o mundo.Um celeiro de alimento, tanto quanto um celeiro de palavra bíblica. Um modelo de tolerância religiosa, de avivamento e de crescimento do evangelho.Mas nos últimos dias estamos sendo contaminados pelo gospel, que parece mais o cuspe de Satanás. Já existe o carnaval gospel, a boate gospel, balada gospel, quadrilha gospel, festa junina gospel, maconha gospel e porque não dizer macumba gospel. Um sincretismo de espiritismo e superstição com evangelho. Ou seja, um evangelho de casca, contaminado com ingredientes da feitiçaria e do mercantilismo hodierno. Exemplo: sal grosso, folha de arruda, sementes de mil reais, água benta, lenço suado, dança em círculo, coreografia sensual, bajulação de ícones gospel, culto a personalidades de destaques no meio gospel, fora as heresias importadas de sessão gospel. Sessão de descarrego, sessão de regressão, sessão de quebra de maldição, sessão de quedas bruscas, sessão de lavagem cerebral para arrancar todo o dinheiro dos crentes, inclusive carro, casa, jóias,anel de formatura e de casamento. Já existe até a fogueira diabólica gospel que tem que queimar tudo, dar tudo, para poder melhorar financeiramente. Mas não precisamos nos impressionar, pois está tudo escrito na palavra. A bíblia diz que nos últimos dias as pessoas não suportariam a sã doutrina, mas buscariam palavras agradáveis. II TM 4.3. Jesus disse que nos últimos dias surgiriam falsos profetas e enganariam a muitos. Paulo nos adverte que os líderes iriam apostatar da fé, dando ouvido a espíritos enganadores.Em 2 Tm 3.1 está escrito que os últimos dias seriam tempos trabalhosos e difíceis, pois os homens seriam egoístas, ganaciosos, soberbos, blasfemos,rebeldes, ingratos, infiéis nos contratos, amantes de si do que do verdadeiro evangelho. Escape quem puder, se agarre em Jesus, busque a simplicidade do evangelho que as Igrejas históricas pregaram nesse País e cuidado com o gospel.
Pasto Jesiel Padilha é pastor em Santos e professor de teologia

quarta-feira, 25 de maio de 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

O REINO DE DEUS NOS SINÓTICOS

A TEOLOGIA DOS SINÓTICOS
Os sinóticos formam em si uma teologia peculiar, a teologia do Reino de Deus. Em Mateus encontramos 53 referências, em Marcos 19, em Lucas 45 perfazendo um total de 117 vezes.Esta teologia é simples, deve ser ensinada mas principalmente vivida. Este Reino já está entre os homens, na pessoa de Cristo, pois aproxima-se dos homens (Mt 3.2; 4.17); pode vir (Mt 6.10); chegar (Mt 12:28); aparecer (Mt 19:11); ser ativo (Mt 11:12).
Deus pode dar o Reino aos homens (Mt 21:43). Mas os homens não podem dar ou tirar de si mesmo, muito embora possam impedir que os outros entrem no Reino.
Os homens podem entrar no Reino, mas nunca foram aconselhados a erigi-lo ou edificá-lo. Os homens podem receber o Reino (Mc 10:15), herdá-lo (Mt 25:34) e possuí-lo, mas nunca devem estabelecê-lo (Lc 10:11), Os homens podem rejeitar o Reino, recusar-se a recebê-lo (Lc 10:11) ou a entrar nele (Mt 23:13), mas não podem destruí-lo. Podem procurar por ele (Lc 23:51) orar por sua vinda (Mt 6:10) e buscá-lo (Mt 6:33; Lc 12:31) mas não somos informados que o Reino cresce. Os homens podem realizar certas coisas por causa do Reino (Mt 19:12; Lc 18:29) mas são conclamados a agirem em relação ao próprio Reino.
Os indivíduos podem pregar o Reino (Mt 10:7; Lc 10:9) mas somente Deus o dará aos homens. O Reino gera a Igreja. O domínio dinâmico de Deus, presente na missão de Jesus, desafiou os homens a manifestarem uma resposta positiva, introduzindo-os em um novo grupo de comunhão.
A presença do Reino significou o cumprimento da esperança messiânica do Novo Testamento que fora prometida a Israel, mas quando Israel como um todo rejeitou a oferta, os que a aceitaram foram constituídos como novo povo de Deus, os filhos do Reino, o verdadeiro Israel, a Igreja incipiente. A Igreja não é senão o resultado da vinda do Reino de Deus ao mundo por intermédio da missão de Jesus.
O QUE É O REINO DEUS? COMO E QUANDO SE PROCESSA? QUAIS SEUS CRITÉRIOS? QUAIS SUAS IMPLICAÇÕES? QUAL É SUA DINÂMICA E ESFERA DE AÇÃO?
VEJA O REINO EM MATEUS:
*O reino está próximo, arrependei-vos e convertei-vos Mt 3.2
*Jesus pregou o evangelho do reino Mt 4.23
*Bem aventurado os humildes, porque dos tais é o reino de Deus.5.3
*Bem aventurado os que têm fome e sede de justiça, porque dos tais é o reino de Deus 5.10
*Quem quiser ser o maior serão menor no reino 5.19
*Quem desobedecer os mandamentos será pequeno no reino 5.19
*Quem obedecer será grande 5.19
*Se a nossa justiça não exceder a dos fariseus e escriba, jamais entraremos no reino 5.20
*O reino deve ser buscado com oração 6.10
*O reino deve ser buscado acima de tudo 6.33
*Nem todo que diz senhor, entrará no reino 7.21
*Muitos virão do oriente e ocidente e entrarão no reino 8.11
*Os filhos do reino serão lançados nas trevas 8.12
*Jesus mandou pregar que reino está perto 10.7
*O reino de Deus não está dividido, de outra forma não subsistiria 12.25
*O reino de Deus dissipa o reino das trevas 12.28
*Nem todos têm o privilegio de conhecer os mistérios do reino 13.11
*O reino de Deus é comparado a parábola do trigo e joio. 13.24
*O reino é comparado a um grão de mostarda 13.31
*O reino é semelhante ao fermento na massa. 13.33
*O reino é comparado a um homem que encontrando um tesouro num campo, *vende o tesouro e compra o campo. 13.44
*O reino é comparado a uma rede que apanha todo tipo de peixe, mas quando está cheio de peixes, seleciona os bons e rechaça os ruins.13.48
*A primeira pregação no dia do pentecoste foi a chave da abertura do reino 16.19.
*O reino pertence aos pequenos 18.3
*Os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros no reino 20.30
*Meretrizes e publicanos precedem religiosos no reino 21.31
*O reino será tirado dos religiosos e dado a quem produz frutos 21.43
*O reino é comparado a um rei que os nobres rejeitaram seu convite, mas ele convidou pobres e marginalizados. 22.2
*O reino será conhecido de todos antes do fim 24.14
*O reino é comparado as dez virgens 25.1
*O Senhor convidará para que os filhos entre na posse do reino que está preparado desde a fundação do mundo.25.34
*Haverá um longo interstício entre a última ceia com Jesus e a ceia no reino escatológico. 26.29.
O REINO EM MARCOS:
*O reino de Deus chegou e com ele o tempo de se cumprir as escrituras 1.15
*Um reino dividido não subsistirá. 3.24
*Nem todos têm acesso aos mistérios do reino. 4.11
*O reino é como um homem que lança a semente e depois se admira do seu broto, sem saber como se processou. 4.26
*O reino é como um grão de mostarda 4.30
*A inauguração da Igreja no dia de pentecoste estabelece a vinda do reino com poder do Espírito Santo conforme Mt 16.19 A Igreja é agente deste reino.Mc 9.1
*Vale a pena o altruísmo e a abstinência para entrarmos no reino. 9.47
*Dos pequenos é o reino 10.14
*Quem não receber o reino na qualidade de pequeno não entrará nele. 10.15
*Dificilmente entrará no reino quem confia em riquezas. 10.23 10.24
*Jesus foi aclamado o Rei do reino de Deus, conforme a aliança de Davi. 11.10
*A verdadeira compreensão da palavra conduz o homem a proximidade do reino. 12.34
*Depois da última ceia Jesus só beberia a próxima no reino de seu Pai 14.25
*José de Arimatéia esperava o reino de Deus 15.43
O REINO EM LUCAS:
*Satanás mostrou o seu reino em troca do reino de Deus. 4.5
*Satanás ofereceu a glória do seu reino em troca da glória do reino de Deus 4.6
*É necessário que o filho do homem anuncie evangelho do reino de Deus.4.43
*Os pobres são fortíssimos candidatos ao reino de Deus. 6.20
*O menor no reino de Deus é maior no reino terrestre 7.28
*Jesus andava de aldeia em aldeia pregando o evangelho do reino 8.1
*Nem todos têm acesso a compreensão verdadeira do reino. 8.10
*Jesus comissionou discípulos par pregar o evangelho do reino. 9.2
*A rotina de Jesus era falar sobre o reino 9.11
*Alguns discípulos teriam a oportunidade de ver a glória do reino(talvez se referisse a transfiguração) 9.27
*Jesus mandou pregar o reino impreterivelmente 9.60
*Quem retrocede não é apto ao reino de Deus 9.62
*Jesus mandar pregar que o reino já está entre os homens. 10.9
*Sabei que o reino está perto 10.11
*Jesus mandou buscar o reino em oração 11.2
*O reino de deus não divide, caso contrário não prevaleceria. 11.17 11.18
*Se o reino de Deus está expulsando o reino das trevas, realmente o reino de Deus é chegado a vós. 11.20
*Buscai o reino com prioridade e as outras coisas acontecerão naturalmente. 12.31
*O Pai se agradou e se alegrou em poder nos dar o reino 12.32
*O reino é comparado ao grão de mostarda. 13.18
*O reino é comparado ao fermento na massa. 13.20
*Muitos filhos do reino serão lançados fora 13.28
*Virão muitos do oriente e do ocidente e assentarão a mesa no reino de Deus. 13.29
*Muitos convidados ficarão de fora do reino e muitos não convidados entrarão no reino de Deus. 14.15-18.
*O reino vem sendo pregado e os homens se esforçam para entrar nele. 16.16
*O reino não vem com aparência 17.20
*O reino está dentro de nós. 17.21
*Dos pequenos é o reino de Deus. 18.16
*Quem não receber o reino na qualidade de pequeno, não entrará nele. 18.17
*Dificilmente entrará um rico no reino de Deus. 18.24
*É mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que o rico entrar no reino de Deus. 18.25
*Quem priorizar o reino será recompensado muitas vezes. 18.29
*Quem investe no reino é reconhecido pelo Pai 19.11-27.
*Sabei que o reino está perto 21.31
*Na última ceia Jesus disse que só comeria no reino escatológico 22.16 22.18
*Assim como meu pai me confiou um reino, eu vos outorgo o poder deste reino e vos convido para cear. 22.29-30
*Lembra-te de mim quando entrares no teu reino, clamou o ladrão. 23.42
*José de Arimatéia esperava o reino de Deus. 23.51
Pr. Jesiel Padilha ministrando teologia do Novo Testamento

TEORIA DO MÉTODO TEOLÓGICO

TEORIA DO MÉTODO TEOLÓGICO

Como Nasce a Teologia

Ementa: Pretende-se precisar como se processa o ato de teologizar, descrevendo fenomenologicamente como se dá o fazer teológico.

Porque Isto: A Teologia?

1.A fé deseja saber
A pessoa de fé quer naturalmente saber o que é mesmo aquilo que acretida, se é verdade ou não.Quer saber também o que implica tudo aquilo em sua vida concreta e em seu destino.Tal é a definição clássica da teologia: fides quaerens intellectum (a fé buscando entender) É a expressão já clássica de Anselmo(1109) a fé deseja saber, ela busca a luz. Seguindo a mesma linha de Agostinho(IV século) desejei saber com inteligência o que acreditei. O amor é um elemento intrínseco da fé. Quem ama medita, divaga. Alhures afirma: “o amante não se contenta com a atenção superficial do amado”. Citemos igualmente outro grande metodólogo, agora das ciências modernas, Francis Bacon : “ dá à fé o que é da fé “ fidei quae fidei sunt”
Em vão lutará frustra sudaverit” aquele que pretende obrigar os celeste arcanos da religião a se adaptarem a nossa razão.

2. O espírito humano busca incansavelmente conhecer.
Examinemos agora a mesma questão pelo lado sujeito que crê.
Aristótelos afirmou: ‘todo ser humano aspira o conhecimento” . Por isso a teologia pode se definir como “ afé de olhos abertos”. É a fé lúcida, inteligente e crítica.

3. A teologia nasce da fé acompanhada da conversão. Só um ser profundamente transformado pode verdadeiramente ter acesso aos mistérios divinos.

4.A fé é unitária, nos completam nessa complexidade que a fé é fonte, objeto e fim da teologia.de fato da fé compreende:
fides quae: fé palavra, que a fé dogmática
fides qua: fé experiência, que é a fé fiducial.
Fides informata: fé prática, encarnada.
A fé é simultaneamente princípio objeto e objetivo da teologia. E é riqueza de suas múltiplas dimensões. Por isso, entende-se a fé como um ato de total obediência a palavra, como faz Paulo em Romanos 1.5.
A fé vem antes da teologia e tem o primado absoluto sobre ela, como mostra a tradição teológica, nas linhas do “ crer para entender de Agostinho’ e que retornou em seu “ creio para entender”. Podemos afirmar que a teologia é um falar a partir do falar de Deus. Seu objetivo é um sujeito, uma pessoa “ alguém”. Deus é o sujeito eterno da teologia.

O Que Estuda a Teologia e Em que Perspectiva

Para desenvolver a questão do objeto e da perspectiva própria da teologia, partimos da estrutura do saber científico.
O saber científico põe em ação três elementos principais:
o sujeito epistênico, em nosso caso o teólogo.
o sujeito teórico, na teologia, Deus e sua criação.
O método especifico que é o caminho para o sujeito chegar ao objeto visado.

I.Distinção Epistemológica Primária
Devemos partir da distuição clássica entre objeto material e objeto formal de uma ciência.
1.Objeto Material – “o que” é um “corte vertical” delimitando uma região, para delas em seguida se ocupar. Trata-se do “que” de um saber, i.e., matéria prima, temática, assunto, questão.
2.Objeto Formal – “como” é um corte horizontal no objeto material, a fim de captar-lhe em nível ou camada. Aqui temos nos o “que”, nos “como”, i.e.,aspecto, dimensão, faceta, lado, nível, razão específica.

Estrutura do Discurso Teológico Particular

1.O objeto material da teologia. De que trata a teologia? Deus e tudo o que se refere a Ele, i.e., o mundo Universo: a criação, a salvação e tudo mais. Mas como Deus é o ”determinante sobre tudo”, então, qualquer coisa pode ser objeto de consideração do teólogo. Deus, com efeito, pode ser definido como “a realidade que determina todas as realidades”.
Poderíamos falar, com outras palavras, assim: Deus é o objeto “ principal” da teologia; tudo mais é objeto “conseqüencial”. De fato a fé diz respeito em primeiro lugar a Deus, e das demais coisas só por conseqüência , ou seja, por causa de Deus.
2.O objeto formal da teologia. Que é “Deus enquanto revelado”. É o Deus revelado, o Deus da Bíblia, o Deus do evangelho, o Deus Salvador.
Todos os outros objetos da teologia- objetos secundários- são tratados sob a mesma ótica, ou seja, a partir do revelado. E podem ser teologizados na medida em que são relacionados com o Deus da fé, ou seja, enquanto situados sub ratione Deus, “ sob o enfoque de Deus”.
O decisivo num assunto qualquer é sempre seu objeto formal (objetivo), ou, a perspectiva (subjetiva) a partir da qual se encara aquele assunto. é o objeto formal que determina se um discurso é ou não é teológico.
Deus é o sujeito eterno da teologia, já que a teologia é o discurso de Deus sobre o ser humano e não o discurso do ser humano sobre Deus, este último é conhecido como “ teologia filosófica”, e não teologia cristã, que é o discurso da palavra de Deus e não simplesmente da fé subjetiva dos fiéis.

OS NOVOS ENFOQUE TEOLÓGICOS

São 5 os principais enfoques teológicos que marcam presença no atual cenário teológico, as quais buscam integrar em seus discursos um horizonte globalizado:
1.O enfoque da libertação. A teologia da libertação(que trata dos problemas sociais)
2.O enfoque feminista. Teologia que vê a fé e o mundo a partir da ótica da mulher.
3.O enfoque étnico. É a teologia inculturada a partir da ótica negra, indígena e asiática.
4.O enfoque inter-religioso. É um teologizar desafiador que busca o diálogo entre as religiões
5.O enfoque ecológico. É toda questão teológica concernente a vida, natureza e todo cosmos em seus mútuos relacionamentos.
Contestar que Deus não pode ser substituído por libertação, ou outro tema qualquer é confundir objeto material com objeto formal, e não caracterização de ilegitimidade do tema.Deve ficar claro porém que tais enfoques de modo nenhum substituem o enfoque originário da teologia , que é pensar tudo “ à luz da fé” . são enfoques secundários que se somam ao primário, apóiam nele, o desdobram e, de todos os modos, se articulam sobre ele e com ele. A teologia pode ser feita a partir de qualquer perspectiva, desde que o foco esteja no ponto mais originário, ou seja, “ a partir da fé”, ou a partir do Deus de Jesus Cristo.

A RACIONALIDADE DA TEOLOGIA

A razão não é só a razão formal (lógica) ou a empírico-formal(científica) existe também a razão discursiva em geral, a que exibe razões várias para se explicar: argumentos, raciocínios, provas de diversos tipos, seja necessitantes, seja convenienciais.

A Distinção Entre “ intellectus” e “ Ratio” em Teologia.

1. Intellectus fidei é o intellectus, enquanto função originária e originante do pensar, que está em operação no campo da fé. Essa atitude fundamental constitui precisamente o intellectus fidei. Este testemunha que a fé possui sua evidencia, sua luz e inteligência específica. A fé tem seus próprios olhos. A fé aparece aí como saber, experiência, gnose, sabedoria, amor.
2.Ratio fidei é a fé feita razão, melhor ainda, feita razões, é isso precisamente teologia. Ela nasce do intellectus fidei, para tornar-se, em seguida, a ratio fidei.
Do mesmo modo como se distinguem inteligência e razão, assim também importa distinguir fé e teologia, fé e razão, assim também importa distinguir fé e teologia, fé e razão, mais precisamente inteligência da fé e razão da teologia. Distinguir, sim, mas para unir. Pois se trata de momentos diferentes de um mesmo processo. Em metáfora, Castro Alves destaca a pomba mística fé da águia da razão.
Hermenêutica em Teologia
Passando agora à teologia, digamos que sua razão própria também possui uma constituição hermenêutica. E isso num duplo sentido. É hermenêutica, em primeiro lugar, porque trabalha os textos da Bíblia. É hermenêutica no sentido estrito. Nessa linha, a teologia como hermenêutica procura a verdade absoluta dos oráculos proféticos, mediação da revelação. Todo seu esforço racional neste caso consiste em interpretar corretamente a palavra de deus. Mas, como particularidade própria, a teologia não precisa perguntar, como fazem as outras ciências humanas: Será que tal sentido intencionado é verdadeiro? Pois ela daria já por assentada, de antemão, no âmbito da fé, a verdade do oráculo divino. As questões que ficam para a teologia e que ela tem que enfrentar são só duas:
1.foi Deus mesmo que falou isso?
2.O que ele quis mesmo dizer com isso?
Mas a teologia é hermenêutica também num segundo sentido: porque interpreta sempre de novo a tradição viva da fé em função dos tempos.

TEOLOGIA É CIENCIA

Que é teologia? Na definição de agostinho é discurso sobre Deus. Mas nem sempre o discurso sobre Deus tem conotação científica. O que nos interessa aqui é saber se a teologia é ou pode ser ciência. Teologia é ciência partindo do princípio que a ciência é um conceito analógico. Ora, o que a teologia pode ter(e de fato tem) em comum com as outras ciências é o modelo formal, caracterizando pelos três traços seguintes:
1.Criticidade
Assim como toda a ciência, a teologia é um saber crítico, ou seja, um saber que opera sobre si mesmo, que é consciente de seus procedimentos. A teologia é, portanto, um saber edificado sobre a análise crítico-metódica das verdades da fé.
2.Sistematicidade.
Toda ciência cria um corpo de saber. Tal corpo é unificado segundo princípios de estruturação interna, para formar uma arquitetura teórica coerente.
Pela sua posição original” pística” a teologia não busca criar de fora sistemas explicativos para depois aplica-los ao ministério, mas antes procura refazer teoricamente a estrutura interna do próprio ministério. Fá-lo através de sistema de sentido que tenham uma capacidade máxima de saturação noética. Veremos como, em teologia os pontos de fuga desses sistemas são sempre numerosos, devido a transcendência de seu objeto. Queremos dizer que o sistema de compreensão que melhor explica o ministério cristão é também o mais científico do ponto de vista teológico.
3.Dinamicidade.
Nas ciências hermenêuticas a dinamicidade é ainda mais acentuada. Pois as organizações de sentido que buscam saturar explicativamente o campo próprio de estudo se revelam sempre curtas. Daí as contínuas retomadas de explicação no curso das pesquisas históricas.
Assim também ocorre analogamente com a teologia. E mais ainda com ela. Pois se há uma característica científico-formal que mais convém à teologia é esta. Isso por uma razão dupla:
O horizonte de mistério ou transcendência de seu objeto; e protensão escatológica da verdade divina pelo fato de a revelação plena”apocalipse” ser um evento decididamente parusíaco.
Tudo isso dá à teologia um dinamismo extremo, sem paralelo com qualquer outro discurso. Por isso a teologia continuamente faz e refaz suas estruturações racionais, procurando avançar o quanto pode. Daí o dilúvio de discursos e produções teológicas, como a ameaçar submergir o mundo(jó 21.25).

A teologia é ciência na medida em que realiza a tríplice caracterização formal de toda ciência, que é a de ser crítica, sistemática e auto-amplificativa.
Falando em geral, a racionalidade própria da teologia, enquanto “ ciência humana’ , é de tipo hermêutico: ela procura compreender, de modo mais exaustiva ou “ saturado” possível, a palavra de Deus ou o sentido da fé, primeiro do texto bíblico e, em seguida, à luz deste, do “ texto da vida” .
BIBLIOGRAFIA
TEORIA DO MÉTODO, Editora vozes clóvis boof

sábado, 30 de abril de 2011

A MORTE E A DOR NA VISÃO DO FILÓSOFO ARTHUR SCHOPENHAUER

A morte e a dor

Ateus.net Artigos/ensaios Filosofia Autor: Arthur Schopenhauer Fonte: A vontade de amar. São Paulo, Edimax, s/d. (1950?)

A Morte

O Grande Desengano. O laço formado com inconstância pela criação é desfeito pela morte, sendo a penosa aniquilação o principal erro do nosso ser; o grande desengano. A Filosofia; Filha da Morte. Morte, gênio inspirador, a musa da filosofia. Sem a qual dificilmente se teria filosofado. A Noite Eterna. Quão longa é a noite da eternidade comparada com o curto sonho da vida. Não Sobreviver; Persistir. A indestrutibilidade que a duração infinita da matéria oferece, poderia consolar aquele que não pode conceber outra imortalidade. O quê? dir-se-á a persistência de uma matéria bruta, de um pouco de pó, seria a continuidade do nosso ser? Sim, um pouco de pó. Conhecem o que é esse pó? Aprendam a conhecê-lo antes de o desprezar. Essa matéria, pó e cinza, dentro em pouco dissolvida na água, brilhará no esplendor dos metais, projetará faíscas elétricas, manifestará o seu poder magnético, converter-se-á em animal e em planta, e no mistério de sua essência criará essa vida, cuja perda chora amargamente nosso espírito acanhado. Não será nada, então, persistir na indestrutível matéria? Dogma da Imortalidade. A natureza nos ensina a doutrina da imortalidade, quando se observa, no Outono, o pequeno mundo dos insetos, e se nota que um prepara o leito para o longo sono do Inverno, que outro prepara o casulo onde se transforma em crisálida, para renascer na Primavera, e que, enfim, esses insetos se contentam, quando próximos da morte, em colocar os ovos em lugar favorável para renascerem um dia rejuvenescidos, num novo ser? A natureza nos expõe a esses exemplos com o intuito de demonstrar que não há diferença fundamental entre a morte e o sono; ambos, perigo algum constituem à existência. O cuidado com que o inseto prepara a célula, o buraco, o ninho e o alimento para a larva, que há de nascer na Primavera, e morre, uma vez isso feito, assemelha-se muito ao cuidado com que o homem, à noite, arruma a roupa, prepara o almoço para o dia seguinte, indo depois dormir sossegadamente. E isto não sucederia se o inseto que morre no Outono não fosse exatamente igual ao que deve nascer na Primavera, assim como o homem que se deita, é o mesmo que se levanta no dia seguinte. A Vida e a Morte. Nascimento e morte são condições da vida, e se equilibram, formando os dois pólos, as duas extremidades da existência, e ao seu redor giram todas as suas manifestações. Um símbolo da mitologia hindú, a mais sábia de todas, dá como atributo a Siva, o Deus da morte e da destruição, um colar de caveiras e o lingam , órgão e símbolo da geração, pois o amor é a compensação da morte, e um ao outro se neutralizam. Para tornar mais evidente o contraste da morte do homem com a vida imortal da natureza, os gregos e os romanos adornavam os seus sarcófagos com baixos relevos figurando danças, caças, lutas entre animais, bacanais e, numa palavra, todos os espetáculos de uma vida mais forte, mais agradável e alegre, e até mesmo sátiros unidos a cabras. Necessidade da Morte. A individualidade do homem tem tão pouco valor que nada perde com a morte; há alguma importância nos característicos gerais da humanidade, que são indestrutíveis. Se concedessem ao homem uma vida eterna, sentiria tanta repugnância por ela que acabaria desejando a morte, farto da imutabilidade de seu caráter e de seu ilimitado entendimento. Se exigíssemos a imortalidade perpetuaríamos um erro porque a individualidade não deveria existir, e o verdadeiro fim da vida é livrar-
nos dela. Se não houvesse penas e trabalhos, acabaria o homem por enfastiar-se, e voltaria a sofrer as dores do mundo em tudo o que se encontrasse ao seu alcance. Num mundo melhor o homem não se sentiria feliz, o essencial seria fazer com que ele seja o que não é, isto é, transformá-lo completamente. A morte realiza a principal condição; deixar de ser o que é; tendo isto em conta, concebe-se-lhe a necessidade moral. Ser colocado noutro mundo, e mudar inteiramente de ser, é no fundo uma só e mesma coisa. Seria conveniente que a morte, que destruiu uma consciência individual, a reanimasse de novo dando-lhe uma vida eterna? Qual o conteúdo, quase invariável desta consciência? Uma torrente de idéias e preocupações mesquinhas, acanhadas, terrenas. Melhor seria deixá-la repousar eternamente. Supremo Consolo. Contemplando a expressão de suave serenidade refletido no rosto da maioria dos mortos, parece que o fim de toda a atividade da vida, seja um consolo para a força que a mantém. Indiferença da Natureza perante a Morte. A vida e a morte, o nascer e o morrer, é o maior jogo de dados que conhecemos; ansiosos, interessados, agitados assistimos a cada partida, porque a nossos olhos tudo se resume nisso. A natureza, pelo contrário, que é sempre sincera e nunca mente, contempla a partida com ar indiferente, não se preocupa com a morte ou a vida do indivíduo, entregando a vida do animal e também a do homem a todos os acasos, não fazendo o mínimo esforço para os salvar. Esmagamos sem querer o inseto que se acha em nosso caminho; a lesma necessita de todo meio para se defender, não pode fugir, esconder-se, nem enganar, está condenada a ser presa de todos os seus inimigos; o peixe saltita tranqüilamente na rede ainda aberta; o sapo devido a sua moleza não pode salvar-se; o pássaro não vê o falcão voar sobre sua cabeça, nem a ovelha vê o lobo que a espreita oculto na mata. Todos esses animais inofensivos e fracos, vivem no meio de perigos ignorados, dos quais podem ser vítimas a todo momento. A natureza exprime com esse procedimento, no seu estilo lacônico, oracular, que lhe é indiferente a destruição de seus seres, não podendo ser por eles prejudicada, e que em casos semelhantes tão indiferente é o efeito como a causa. Por isso abandona sem defesa esses organismos, obras de uma arte eterna, à vontade do mais forte, aos caprichos da sorte, à crueldade da criança, ao mau numor de um imbecil. A natureza, mãe soberana e universal de todo o criado, sabe que quando seus filhos sucumbem, voltam ao seu seio, onde os conserva ocultos, expondo-os a mil perigos sem temor algum; a sua morte é para ela um divertimento, um jogo. A natureza é indiferente no que se relaciona ao homem ou ao animal; não se deixa impressionar conosco, durante a vida ou na morte. Tampouco devíamos nos comover porque fazemos parte dela. A Folha Seca Interroga o Destino. Se dirigíssemos o pensamento para um longínquo futuro e procurássemos representar-nos às futuras gerações com os milhões de homens distintos e diferentes de nós pelos usos e costumes, perguntaríamos a nós mesmos: De onde vieram? Onde estão agora? Onde se achará o profundo seio do nada, produtor do mundo, que os oculta? Mas a esta pergunta, devíamos sorrir, por onde se poderá achar senão onde toda a realidade é, e será, no presente em tudo o que este representa e contém, em ti, insensato que interrogas, pois ignorando a tua própria essência, assemelhaste a uma folha seca que oscila no ramo de uma árvore, e, no Outono, pensando na sua próxima queda, lamenta sua sorte, sem querer consolar-se com a idéia dos tenros brotos que na Primavera virão adornar a árvore. E a folha seca se queixa: Já não sou eu, serão outras folhas . Oh! folha insensata onde queres tu ir? De onde poderiam vir as outras folhas? Onde está esse nada em que temes sucumbir? Reconhece, pois, o teu próprio ser oculto na força íntima, sempre ativa da árvore, nessa energia que não acarreta a morte nem o nascimento de todas as suas gerações de folhas. Não sucede com as gerações de homens o mesmo que com as folhas de uma árvore?
A Dor
A Vida é Dor. Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor. Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre. A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos. A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em horrível carnificina os restos da presa. A vida é uma história da dor, que se resume assim: sem motivo queremos sofrer e lutar sempre, morrer logo, e assim consecutivamente durante séculos dos séculos, até que a Terra se desfaça. Deus, Criador. Se é certo que um Deus fez este mundo, não queria eu ser esse Deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração. Se imaginássemos um demônio criador, ter-se-ia o direito de lhe censurar, mostrando-lhe a sua obra: Como te atreves a perturbar o sagrado repouso do nada, para criares este mundo de angústia e de dores? Nosso Inferno. O inferno de nossa vida supera o de Dante no ponto de que cada um de nós é o demônio do seu vizinho. Há também um arquidemônio, a quem os outros obedecem: é o conquistador, que dispõe os homens uns em frente dos outros e lhes grita: Vosso destino é sofrer e morrer; portanto, matem-se mutuamente . E assim procedem os homens. O Melhor dos Mundos. Se mostrássemos aos homens as horríveis dores e os atrozes tormentos a que está constantemente exposta sua existência, tremeriam de espanto; e se ao mais convencido otimista fizéssemos visitar os hospitais, os lazaretos, as salas de tortura dos cirurgiões, as prisões, os campos de batalha, os tribunais de justiça, os sombrios refúgios da miséria, e se por último, o fizéssemos contemplar a torre de Ugolino(1), acabaria por reconhecer de que modo é este o melhor dos mundos possíveis . Nosso Mundo; Modelo de Horrores. Se considerarmos a dificuldade que teve Dante em descobrir o céu e suas alegrias, logo se verá que classe de mundo é o nosso. Por quê? Porque o nosso mundo nada apresenta de análogo. E para descrever o Paraíso viu-se o poeta obrigado a dar parte das notícias que lhe deram os seus antepassados, sua Beatriz e vários santos. Sem dúvida, Dante descobriu muito bem o Inferno. Por quê? Porque achou o assunto e o modelo na realidade do nosso mundo. A Tragicomédia de Nossa Vida. Vista e examinada minuciosamente de alto e de longe, a vida de cada homem tem o aspecto de uma comédia; em sua total consideração ou em seus aspectos mais dignos de apreço, se apresentará como uma contemplação trágica. O afã e o trabalho de cada dia, os desejos e receios cotidianos, as desgraças de cada hora, os acasos da sorte sempre disposta a nos enganar são outras tantas cenas da comédia. As aspirações iludidas, as ilusões desfeitas, os esforços baldados, os erros que completam nossa vida, as dores que se acumulam até terminar na morte, o último ato, eis a tragédia. Parece que o destino quis juntar o escárnio ao desespero, e, fazendo de nossa vida uma tragédia, não nos permite conservar a dignidade de uma personagem trágica. Por isso é que em todos os atos da vida representamos o lamentável papel de cômicos. Da Dor ao Aborrecimento. A dor e o aborrecimento são os dois últimos elementos entre os quais oscila a vida do homem. Os homens exprimiram esta oscilação de modo curioso; depois de haverem feito do inferno o lugar de todos os tormentos e dores, que deixaram para o céu? Justamente o aborrecimento. Rio Abaixo. A vida é um mar cheio de escolhos e turbilhões que o homem evita à força de prudência e cuidados, sem embora desconhecer que, à medida que avança sem poder retardar a marcha, corre para o definitivo e inevitável naufrágio, a morte, fim fatal de sua acidentada navegação, é parte ele muito mais perigoso que todos os turbilhões e escolhos de que conseguiu escapar. Disfarces da Dor. Nossos esforços para banir a dor de nossa vida não conseguem outro resultado senão o de fazê-la mudar de forma. Em sua origem tomam o aspecto da necessidade, cuidado, para atender as coisas materiais da vida, e quando, após um trabalho incessante e penoso, conseguimos afastar a horrível
máscara da dor neste determinado aspecto, adquire outros mil disfarces, segundo a idade e as circunstâncias: o instinto sexual, o amor apaixonado, a inveja, o rancor, os ciúmes, a ambição, a avareza, o temor, a enfermidade, etc. Toma o aspecto triste e desolado do tédio, da sociedade, quando não encontra outro modo de se apresentar. E se com novas armas conseguimos afastá-la novamente, recuperará sua antiga máscara, e a dança recomeça. Condenados à Morte. Na primeira mocidade, colocamo-nos perante o destino, como as crianças, que, em frente ao pano de um teatro, impacientes e alegres, esperam as maravilhas que virão surgir em cena. É uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Para quem sabe o que realmente vai se passar, as crianças são inocentes condenados não à morte, mas à vida, e que desconhecem ainda a sua sentença. Todos Desterrados. Se não fosse a dor, poderíamos dizer que a nossa existência no mundo não teria nenhuma razão de ser. É um absurdo pensar que a dor, que nasce da vida e enche o mundo, seja apenas um acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça pessoal apresenta-se com uma exceção, mas, como somos todos desgraçados, a desgraça geral é a regra. Vivemos Combatendo. Na desgraça, pensar em outros que são mais desgraçados, é o nosso maior consolo: é este o remédio eficaz ao alcance de todos. Porém, como os carneiros, que saltam no prado, enquanto o carniceiro faz a sua escolha no meio do rebanho, assim, em nossas horas felizes, não sabemos que desastre nos prepara o destino, justamente nesse momento: enfermidade, ruína, loucura, perseguições, etc. Tudo que defendemos, resiste-nos, tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. A história nos diz que a vida dos povos é uma sucessão de guerras e revoltas; os anos de paz não passam de curtos entreatos. O mesmo acontece com a vida do homem, em constante luta contra as penas ou o aborrecimento, males abstratos, e contra seus semelhantes. Em todas, as partes e ocasiões temos que travar combate com um adversário. A vida é uma guerra sem quartel, e a morte nos encontra com as armas na mão. O Tempo, Mais um Tormento. A rapidez do tempo, que se conserva atrás de nós como um vigia dos forçados, é mais um tormento da existência, que nos faz viver apressadamente sem sossego e sem deixar-nos respirar. São poupados semente aquele que o tempo condenou ao aborrecimento. Necessidade da Dor. Todos nós necessitamos sofrer certo número de preocupações, de penas e misérias, da mesma maneira que um barco tem necessidade de lastro para conservar seu equilíbrio. Se assim não fosse, se súbito nos libertássemos do peso da dor e das contrariedades,o orgulho do homem o faria em bocados ou pelo menos ele seria levado às maiores irregularidades e até à loucura furiosa, do mesmo modo que o nosso corpo rebentaria se repentinamente deixasse de sentir a pressão atmosférica. O quinhão de quase todos os homens durante sua vida resume-se em pesares, trabalho e miséria, porém, se todas as aspirações humanas se realizassem, como que se preencheria o tempo? O que preencheria sua vida? Se os homens vivessem no país das fadas, onde nada exigisse esforço e onde as perdizes voassem já assadas e recheadas ao alcance da mão, num país, onde cada um pudesse obter a sua amada sem dificuldade alguma, eles morreriam de tédio ou se enforcariam, outros despedaçar-se-iam entre si, causando-se maiores males que os impostos pela natureza. E isto demonstra que para nós não há melhor cenário que aquele que ocupamos, nem melhor existência do que a atual. Se pensamos (e só é possível ter-se uma idéia aproximada) na dor, nos tormentos de todas as espécies que o sol ilumina no seu curso, sentimo-nos propensos a desejar que a sua luz perca o poder criador da vida, como acontece com a Lua, e que a superfície do nosso planeta se faça tão gelada e estéril como a do astro da noite. A Grande Mentira da Vida. Nossa vida é um episódio que perturba, sem nenhuma utilidade, a serenidade do nada. Mesmo aquele que não considera a existência como uma carga, à medida que passam os anos tem a consciência clara do que a vida é, em todos os seus aspectos, uma imensa mistificação, para não dizer uma formidável zombaria. O Espectador se Aborrece. O homem que sobrevive a duas ou três gerações pode ser comparado ao
espectador de um circo, que assiste às mesmas farsas duas ou três vezes seguidas. Como a farsa estava calculada para uma única representação sua repetição não causa efeito no ânimo do espectador, o qual se aborrece por estarem dissipadas a ilusão e a novidade. Uma Bela Expressão. A vida é uma carga enfadonha e aborrecida, uma tarefa que devemos desempenhar com tanto trabalho, que involuntariamente pensamos no descanso: e neste sentido a palavra defunctus é uma bela expressão. Vítimas e Algozes. Povoado por almas torturadas e por diabos que torturam, o mundo é um imenso inferno. A Filosofia não é o Catecismo. Ainda ouvirei dizer que a minha filosofia entristece tudo, isto porque digo a verdade àqueles que só gostariam que eu lhes dissesse: Deus, Nosso Senhor fez tudo muito bem . Ide à igreja, e deixai os filósofos em paz, ou, pelo menos, não lhes exijam que ajustem as suas doutrinas ao vosso catecismo. Recorrei aos filosofastros e encomendai-lhes teorias ao vosso gosto. Não há nada que dê mais prazer ou que seja mais fácil do que perturbar o otimismo dos que ensinam filosofia. A Dor de Viver. Se o ato da geração fosse somente obra de razão e reflexão, em vez de ser uma necessidade ou uma voluptuosidade, subsistiria a espécie humana? Não sentiríamos piedade pela geração futura, para lhe poupar a dor de viver, ou, ao menos, não hesitaríamos em impor-lhe a sangue frio tão pesada carga? Inveja e Compaixão. Não há uma só pessoa que seja verdadeiramente digna de inveja; e quantas são dignas de compaixão. Pranto, Dor e Aborrecimento. Nossa razão se obscurece ao considerarmos que as inúmeras estrelas fixas, que brilham no céu, não têm outro fim senão o de iluminar mundos onde reinam o pranto, a dor, e onde, no melhor dos casos, só vinga o aborrecimento; pelo menos a julgar pela amostra que conhecemos. O Mundo; Lugar de Expiação. Brama criou o mundo por uma espécie de pecado ou desvário, e permanece nele para expiar sua falta. Muito bem! Segundo o budismo, uma perturbação inexplicável criou o mundo, produzindo-se depois um longo repouso na beatitude serena, chamada Nirvana, que será conquistada pela penitência. Perfeitamente. Para os gregos o mundo e os deuses eram a obra de uma necessidade insondável, explicação admissivel, porque nos satisfaz provisoriamente. Ormuzd combate com Ariman: isto podemos admitir. Mas um Deus como esse Jeová, que animi causa, por seu belprazer, criou este mundo de lágrimas e dores, e que ainda se alegra e se aplaude de o haver criado, achando-o bom, isso já é demasiado forte. Sob este ponto de vista, podemos considerar a doutrina dos judeus como a última entre todas as que professam os povos civilizados, sobretudo, sendo que tomemos em consideração de ser ela a única que não possui qualquer vestígio de imortalidade. Ainda que a teoria de Leibnitz fosse verdadeira, embora se admitisse que entre os mundos possíveis este é o melhor, essa demonstração não nos daria nenhuma teodicéia, porque o Criador não se limitou a criar o mundo, mas também a possibilidade de sua criação: por isso deveria ter criado um mundo melhor. A dor que enche o mundo protesta irada contra a hipótese de uma obra perfeita devida a um ser infinitamente bom e sábio, e também todo poderoso. E, por outra parte, é bem evidente a notória imperfeição, a burlesca caricatura que é o homem, obra acabada da criação. Não é possível explicar essa dissonância. Quando consideramos o mundo como obra de nossa própria culpa, e, portanto, como alguma coisa que não pode ser melhor, as dores e miséria da humanidade são provas em apoio desta tese. Se o mundo é obra de um criador, as dores voltam-se contra ele dando lugar a cruéis sarcasmos; mas se é obra nossa, a acusação é contra o nosso ser e a nossa vontade. Isto nos faz pensar que viemos ao mundo já viciados, como os filhos de pais gastos pelos desregramentos, e que se a nossa existência é tão miserável, e tem por desfecho a morte, é porque assim merecemos, para expiar nossa culpa. Generalizando, nada é mais certo: a culpa do mundo é que causa os sofrimentos, e entendemos esta relação no sentido metafórico, e não no físico e empírico.
Por isso, a história do pecado original reconcilia-me com o Antigo Testamento; para mim é a única verdade metafísica que o livro contém expressa em forma alegórica. A nada se assemelha tanto nosso destino como à conseqüência de uma falta, de um desejo culpado. Para ter orientação na vida, e considerar a vida em seu verdadeiro aspecto, basta habituarmo-nos ao pensamento de que este mundo é um vale de lágrimas, em lugar de penitência; a penal colony, como a definiram os mais antigos filósofos, e alguns padres da Igreja. Não é mister que eu diga o que vale a sociedade de nossos semelhantes; aquele estão conscientes que mereciam outra melhor, assim como se sabe que não é a menor pena do presidiário a sociedade em que ele se encontra. Um espírito elevado, uma alma delicada, um gênio pode sentir a mesma necessidade de isolamento que um nobre prisioneiro que se encontra na cadeia rodeado de criminosos vulgares. Se sempre nos lembrássemos de que viemos ao mundo para expiar uma culpa, acolheríamos sem surpresa e sem indignação as imperfeições de nossos semelhantes, os tormentos que aqui sofremos, cuja miserável constituição intelectual e moral se revela até no rosto. A certeza de que o mundo e o homem não podem mudar nos encheria de dó pelo próximo. Com efeito, que podemos esperar de tais seres? Penso, às vezes, que a melhor maneira dos homens se cumprimentarem em vez de ser Cavalheiro, Senhor, Sir , poderiam ser, companheiro de sofrimentos, soci malorum, my fellowsufferer . Por mais irritante que pareça esta expressão, tem mais fundamento que as usuais, e recordanos a paciência, indulgência e amor ao próximo, e, usada por todos, beneficiaria a cada um. A Dor é a Única Positiva. Do mesmo modo que o rio corre manso e sereno, enquanto não encontra obstáculos que se oponham à sua marcha, assim corre a vida do homem quando nada se lhe opõe à vontade. Vivemos inconscientes e desatentos: nossa atenção desperta no mesmo instante em que nossa vontade encontra um obstáculo e choca-se contra ele. Sentimos ato contínuo tudo o que se ergue contra a nossa vontade, tudo o que a contraria ou lhe resiste: ou o que é mesmo, tudo o que nos é penoso e desagradável. No entanto, não prestamos atenção à saúde geral do nosso corpo, mas percebemos ligeiramente aonde o sapato nos molesta; não pensamos nos negócios e só nos importamos com uma ninharia que nos incomoda. Isto quer dizer que o bem-estar e a felicidade são valores negativos, e só a dor é positiva. É um absurdo acreditar o contrário; que o mal é negativo. Ele é positivo, porque se faz sentir. Toda a felicidade, todo o bem é negativo, e toda a satisfação também o é, porque suprime um desejo ou termina um pesar. Acrescentamos a isto que, em geral, nunca sentimos uma alegria maior que a que sonhávamos, e que a dor sempre a excede. Se quereis certeza das diferenças entre o prazer e a dor, comparem a impressão do animal que devora outro, com a impressão do devorado. Bolhas de Sabão. O homem só vive no presente, que se converte no passado, e afunda-se na morte. Exceto as conseqüências que podem influir no presente, e que são filhas de sua vontade, ou de seus atos, a sua vida passada já não existe. Devia portanto ser-lhe indiferente que esse passado fosse de prazeres ou tristezas. O presente foge-lhes das mãos, transformando-se no passado. O futuro é incerto. Fisicamente, o andar não é mais do que uma queda evitada a cada instante; da mesma maneira a existência é a morte suspensa, adiada, e a atividade de nosso espírito não é mais que uma luta constante contra o tédio. É pois fatal que a morte alcance a vitória. Por haver nascido lhe pertencemos, e durante nossa vida não faz senão brincar com a presa antes de a devorar. E assim como quem faz bolhas de sabão, e apesar da segurança de que acabará por rebentar, se entretém em fazê-la aumentar de volume, assim seguimos o curso de nossa existência, prodigalizando-lhe cuidados e atenções. A Felicidade Não Pode Viver no Presente. A vida é uma constante mentira, quer nas coisas pequenas como nas grandes. Quando nos faz uma promessa, não a cumpre, a não ser para mostrar-nos que era pouco desejável o nosso desejo. Da mesma maneira nos engana a esperança quando não se realiza o que esperávamos. E se a vida cumpre o que nos prometeu, é só para nos tornar a tirar. A beleza do paraíso, que à distância admiramos, desaparece logo que nos deixamos seduzir. A felicidade está no futuro, ou no passado; o presente é uma pequena nuvem escura que o vento impele sobre a planície cheia de sol. Diante e atrás dela, tudo é luminoso; só a nuvem é que projeta uma sombra. A Vida na Paz e na Guerra, e Sua Finalidade. A vida nunca se apresenta como um mimo que nos é dado gozar, mas sim como uma tarefa que tem de se cumprir à força de trabalho; disto nasce e toma origem uma concorrência sem tréguas, uma luta sem fim, uma miséria geral, uma agitação em que
tomam parte todas as forças do espírito e do corpo. Milhões de homens, reunidos em nações, trabalham para o bem público, trabalhando assim cada um em seu próprio interesse, porém, as vítimas deste trabalho morrem aos milhares. Às vezes, por preconceitos absurdos, outras, por uma política sutil, as nações se aniquilam numa guerra. É preciso que o sangue do povo corra em abundância para expiar a culpa de alguns, ou para realizar os caprichos de outros. Enquanto reina a paz no mundo, a indústria e o comércio prosperam, as invenções se multiplicam, os navios sulcam os mares, transportando para toda parte produtos do mundo, as ondas tragam milhares de homens. O tumulto é imenso, enquanto uns se agitam e movem, outros meditam. Mas qual é a suprema finalidade de tantos esforços? Manter, no caso mais favorável, a vida de seres efêmeros em uma miséria suportável, e uma ausência relativa de dor que o tédio aceita constantemente, e ademais a reprodução desses seres, e a renovação de seus esforços. Indefesa do Homem. De todos os seres, o homem é o mais necessitado: só tem vontades e desejos, um conjunto de centenas de necessidades. Abandonando a si próprio, vive na terra sem segurança nenhuma a não ser sua miséria. A luta pela vida, cada dia renovada, a necessidade que o constrange, e as imperiosas exigências materiais, preenchem a sua existência. Ao mesmo tempo, outro instinto o atormenta; o de perpetuar a sua raça. Ameaçado por todos os lados pelos perigos que o rodeiam, usa de sua prudência sempre vigilante para poder escapar. Com passo inquieto, lançando em volta olhares angustiosos, segue o seu caminho em luta constante com os casos e com seus inúmeros inimigos. O homem não se sente seguro entre os da sua raça e nem nos mais longínquos desertos. Qualibus in tenebris vitae, quantisque periclis degitur hocc'aevi, quodcunque est! Lucr. 11, 15. Trabalhar ou Aborrecer-se. A necessidade imperiosa do homem é assegurar a existência, e feito isto, já sabe o que fazer. Portanto, depois disso, o homem se esforça para aliviar o peso da vida, torná-la agradável e menos sensível: matar o tempo , isto é, fugir ao aborrecimento. Livres da preocupação de assegurar a existência, e livres seus ombros de todo fardo moral ou material, eles mesmos constituem sua própria carga, e sentem-se felizes porque viveram uma hora desapercebida, embora isto significa que sua vida a qual se esforçam com tanto zelo para prolongá-la, ficou encurtada pelo mesmo espaço de tempo. O aborrecimento merece tê-lo em conta; ele se reflete na fisionomia. O aborrecimento é a origem do instinto social, porque faz com que os homens, que pouco se amam, se procurem e se relacionem. O Estado considerado como uma calamidade pública, e por prudência toma medidas para o combater. O aborrecimento como o seu extremo oposto, a fome, pode impelir o homem aos maiores desvarios; o povo precisa panem et circenses. Fundado na solidão e na inatividade, o rude sistema penitenciário de Filadélfia faz do aborrecimento um instrumento de suplício tão terrível, que mais de um condenado temse suicidado para fugir a ele. A miséria é sofrimento pungente do povo; o desgosto é para os favorecidos. Na vida civil, o domingo significa o tédio, e os seis dias, o desgosto. A Felicidade é um Sonho. Sentimos a dor, mas não a ausência da dor; sentimos a inquietação mas não a ausência; o temor, mas não a tranqüilidade. Sentimos o desejo e a aspiração, como sentimos a sede e a fome; mas, apenas satisfeitos, se acabam, como o bocado que, uma vez engolido, já não existe para o nosso paladar. Enquanto possuamos os três maiores bens da vida, saúde, mocidade e liberdade, não temos consciência deles, e só com a perda deles é que os apreciamos, porque são bens negativos. Somente os dias de tristeza é que nos fazem recordar as horas felizes da vida passada. À medida que os prazeres aumentam, nossa sensibilidade diminui; o hábito já não é um prazer. As horas passam lentamente quando estamos tristes; correm rapidamente quando são agradáveis; porque a dor é positiva e faz sentir sua presença. O aborrecimento nos dá a noção do tempo e a distração nos faz esquecer. Isto prova que a nossa existência é mais feliz quando menos a sentimos: de onde se deduz que mais feliz seríamos se nos livrássemos dela. Uma grande alegria, assim não a julgaríamos se ela não viesse atrás de uma grande dor. Não podemos atingir um estado de alegria serena e duradoura. Esta é a razão porque os poetas são obrigados a rodear seus protagonistas de tristes ou perigosas circunstâncias, para no fim os livrar delas. No drama e na poesia épica, o herói sofre mil torturas: nos romances os heróis lutam pondo em relevo os tormentos do coração humano. A felicidade não passa de um sonho dizia Voltaire, tão favorecido pelo destino? a única realidade é a dor . E acrescenta: Há oitenta anos que a experimento e nada faço senão resignar-me e dizer a mim mesmo que as moscas nasceram para serem comidas pelas
aranhas, e os homens para serem devorados pelos desgostos . O Eterno Estribilho. Vista exteriormente assombra a insignificância da vida da maioria dos homens, vista interiormente é sinistra e lúgubre. Formada por inúmeras dores e aspirações impossíveis, o homem passa sonhando pela meninice, mocidade, virilidade e velhice, rodeado de idéias banais. Os homens assemelham-se a relógios que não sabem porque andam: cada vez que um novo ser nasce, dá-se corda no relógio da vida humana para seguir repetindo o eterno e gasto estribilho de uma caixa de música, frase por frase, compasso por compasso, com pequenas variações. Joguetes da Natureza. O homem, cada um dos homens, é um sonho a mais, um sonho fugaz criado pela tenaz e constante vontade de viver, imagem efêmera que o espírito infinito da natureza desenha na página do tempo e do espaço; impressa nela alguns instantes logo se desfaz para dar lugar a muitas outras. O mais triste, o ponto que nos deve fazer pensar profundamente, é que a vontade de viver há de pagar cada uma dessas imagens efêmeras e caprichosas com o preço de dores profundas e inúmeras, e da morte por longos anos. Eis porque nos tornamos repentinamente sérios perante um cadáver. O Teatro e os Artistas. O mundo é um vasto campo de batalha onde os seres somente devorando-se uns aos outros conseguem conservar e defender a vida; onde todo animal carnívoro é o túmulo vivo de tantos outros; onde o viver significa sofrer longos tormentos; onde a capacidade para a dor aumenta na proporção da inteligência, e atinge, portanto, no homem o mais elevado grau. Os otimistas quiseram adaptar o mundo ao seu sistema, e apresentá-lo a prior como o melhor dos mundos possíveis. O absurdo é evidente. Dizem-me para abrir os olhos e contemplar a beleza do céu iluminado pelo sol, as montanhas, os vales, as torrentes, as plantas, os animais, que sei eu! Acaso será o mundo uma lanterna mágica? A contemplação é bela, confesso, mas aí representar, é coisa completamente diferente. Após o otimista surge o homem que nos fala das causas finais, e elogia as sábias leis que preservam os astros de se chocarem no seu percurso; que evitam o mar e a terra de se confundirem, e os mantém separados; que faz com que nem o frio nem o calor sejam eternos, e que, pela inclinação da eclítica, não permite a primavera, ser eterna podendo assim amadurecer os frutos, etc. Mas tudo isso não são mais que simples conditiones sine quibus non . Porque se os planetas devem ter uma existência mais longa, embora seja o período que demora em chegar a eles a luz de uma estrela longínqua, e se não desaparecem após o nascimento, era preciso que as coisas estivessem mal arquitetadas, para que a base fundamental ameaçasse ruína. Chegamos aos resultados desta obra tão elogiada, e observamos os atores que se movimentam nesta, tão sábia e solidamente construída. Vemos que a dor aparece juntamente com a sensibilidade, e à medida que esta se torna inteligente, a dor e o desejo caminham par a par, e o primeiro chega a tal desenvolvimento que finalmente, a vida do homem nada mais é que um assunto trágico ou cômico. A sinceridade de certos homens não lhes permite a união ao coro dos otimistas, e com eles entonar a aleluia. A Vida é um Pesado Gracejo. Se considerarmos a vida objetivamente, é duvidoso que ela seja preferível ao nada. Atrever-me-ia até a dizer que se a reflexão e a experiência pudessem fazer um acordo, elevariam a voz em favor do nada. Se batêssemos nas pedras dos sepulcros e perguntássemos aos mortos se querem ressuscitar, moveriam negativamente a cabeça. É esta a opinião de Sócrates na Apologia de Platão. O alegre e feliz Voltaire dizia: Amamos a vida, porém o nada não deixa de ter o seu lado bom . Em outra parte dizia: Ignoro o que seja a vida eterna, mas esta é um pesado gracejo . De Ontem a Hoje. A juventude é uma infatigável aspiração de felicidade; a velhice, pelo contrário, é dominada por um vago e persistente sentimento de dor, porque já estamos nos convencendo que a felicidade é uma ilusão, que só o sofrimento é real. Por isso, o homem sensato deseja mais sofrer que gozar. Em plena juventude, quando eu ouvia bater à porta, saltava de alegria, e pensava: Bom! Alguma coisa sucede . Mais tarde, experimentado pela vida, o mesmo ruído sobressaltava-me de angústia, e pensava: Que sucederá, meu Deus?. A Dura Jornada. Na velhice ao perder os sonhos da sua juventude todo homem que estudou a história do passado e a da sua época, e recolheu o fruto da sua experiência e da alheia, se não estiver com o
espírito perturbado por preconceitos muito arraigados, chegará à conclusão de que este mundo é o reino do acaso e do erro, que é governado a seu modo sem compaixão alguma, auxiliados pela maldade e pela loucura, que ao homem empolgam constantemente. Mil trabalhos e esforços é preciso para impor uma idéia nobre, porque dificilmente encontra uma oportunidade de apresentar-se, enquanto que a vulgaridade artística, os sofismas, a malícia e a astúcia reinam de geração em geração, aqui e alhures sem serem interrompidos.
Nota: 1) Referência à obra A Divina Comédia (Inferno, canto XXXIII), de Dante Alighieri, que viveu entre os anos 1265-1321. Ugolino foi murado numa torre com os filhos. Quando o desespero lhe inspira um gesto equívoco morder as próprias mãos , os filhos lhe oferecem a própria carne para mitigar sua fome. Ugolino recusa. Morrem os filhos. E o pai acaba por lhes comer os cadáveres antes de por sua vez perecer .

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

VENTOS DE DOUTRINA QUE PASSAM

No limiar dos cem anos de aniversário da Assembléia de Deus, pude contemplar nesses 46 anos que tenho de vida e de Assembléia não poucos ventos de doutrina que passaram, e outros que ainda permeiam não só nossa Igreja, mas o meio chamado evangélico. Dos quais gostaríamos de analisar e comentar.
No naufragar da idade moderna, inicio da pós moderna que foi a década de 60 presenciamos a onda do sectarismo e do radicalismo, onde tudo era pecado-assistir televisão, cuspir, beber coca-cola, passear, usar tênis e jens e outras proibições esdrúxulas que não convém citar aqui. Era a onda do taliban religioso em muitas Igrejas pentecostais.Neste mesmo tempo presenciamos a onda da apologia que se fazia a ignorância, proibindo o estudo teológico e outros estudos seculares.
Depois veio a onda dos arrebatamentos(70-80)- fui no céu vi um velhinho de barba branca e roupas cumpridas, vi Jesus, vi Deus, vi Espírito Santo. Vi meu avó, vi o saudoso pastor fulano de tal, mas fui ao inferno também e lá vi saia rachada, cabelo, presília, arco de cabelo, tv, paletó rachado e tinta de cabelo. Quem lembra dessa época? Foi uma onda que passou.
Depois veio a onda das revelações(80-90) 150 profecias e 200 revelações numa vigília de uma congregação com 50 pessoas num único culto. Muitas dessas relevações se converteram em piadas até hoje.Era a banalização da profecia. Um Pastor Presidente chegou a comentar comigo que tinha um movimento desse em sua Igreja que atraía milhares de pessoas e que ele mesmo não concordava com o estilo da vigília, nem ele frequentava, mas não movia uma palha para fazer parar.
Depois veio a onda do terrorismo escatológico em que tudo era rotulado de anti-cristo. O 666 estava na testa de Michael Gorbachov, na barba do Lula, na bota da Xuxa, na embalagem dos alimentos. Alguns entravam no Mercado até com medo do que iam comprar. Essa onda passou.
Depois veio a onda do dente de ouro, já passou.
Depois veio a onda do cair na unção, regressão, quebra de maldição, adoração a anjos, anjo Muriel, anjo Rafael, anjo Salatiel, cadeira reservada para anjos e outras crendices como suco do céu com sabor de morango. Essa onda não conseguiu entrar em nossa Igreja, com exceção de meia-dúzia de pastores, mas depois se envolveram também em escândalos como peculato, lavagem de dinheiro,penhora de templos, sanguessuga e divorcio na familia. Essa onda também já está saindo de moda.
Agora estamos vivendo a onda da teologia da prosperidade, com venda de unção por 900 reais. Ofertas proféticas de mil reais. Curandeirismo em detrimento da pregação do evangelho que é a verdadeira profecia e a introdução de liturgias do candomblé em cultos pentecostais como vomitar cobra, engolir cobra, fumar dentro do templo para nunca mias fumar. Colar o pé no chão. Colar as mãos. Dança em círculo no ritmo da candomblé, roda pião, aviãozinho, imitar animais, engatinhar no púlpito imitando gato, leão, cordeiro. Isso aconteceu recentemente com uma cantora gospel famosa. Retorcer o corpo como se estivesse fugindo de bala, caratê, metralhadora e gargalhada e muitas outros trejeitos do neopentecostalismo hodierno.
Outra onda perigosa que quer entrar é o endeusamento dos líderes religiosos, ícones dos movimentos pentecostais. O endeusamento de Pastores ricos e famosos e consumistas em detrimento da piedade e da simplicidade que é característica inalienável do evangelho da cruz do Senhor Jesus.
A unica coisa coisa que não é moda, nem onda, nem vento e´o evangelho puro do Senhor Jesus, isso não vai passar. Jesus disse: passarão os céus e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar. Todas essas crendices passaram, outras passarão, mas o evangelho simples que a Assembléia de Deus abraçou foi a causa de se tornar uma denominação respeitada no mundo. A virtude do evangelho que sempre pregamos que transforma um homem degradado em uma nova criatura é a base que deve nortear o destino de uma verdadeira Igreja.

Pr. Jesiel Padilha